Por que o Kremlin libertou Khodorkóvski?

Ilustração: Konstantin Maler

Ilustração: Konstantin Maler

Na libertação do magnata Mikhail Khodorkóvski há tantos mistérios e coincidências que a história daria um bom thriller. Porém, ao contrário do que afirmavam os otimistas, passou longe da “vitória do movimento dos direitos humanos na Rússia”. Khodorkóvski não ganhou presente algum, quem ganhou foi o país em sua relação com o com o Ocidente.

A tentativa mais óbvia é de melhorar a imagem do país antes dos Jogos Olímpicos de Sôtchi, em fevereiro do ano que vem. Mas a libertação de Khodorkóvski, que lembra muito o exílio de Soljenítsin em 1974, também pareceu uma operação especial de troca de espiões. E, curiosamente, na data em que se comemora o Dia do Agente de Segurança.

Poucos se lembram que, no verão deste ano, o tribunal de Stuttgart condenou por espionagem os alemães Andreas e Heidrun Anschlag, que forneceram informações secretas à Rússia durante os últimos 20 anos. Por meio dos informantes, o país teria tido acesso a dados confidenciais sobre operações da Otan no Afeganistão e implantação do escudo antimíssil no Leste Europeu. A questão foi levantada no último encontro entre Angela Merkel e Vladímir Pútin, embora ambas as partes tenham negado.

Outra curiosidade é o fato de o governo Obama anunciar na sexta-feira passada que não haverá inclusão de novos nomes na “lista Magnítski”, uma relação dos políticos russos suspeitos de violar direitos humanos e proibidos de entrar nos EUA. Moscou e Washington teriam promovido um amplo diálogo, que inclui a Síria e o Irã, pelo qual ficou decidido que não é o momento de “atirar pedras”.

A visita de Henry Kissinger a Moscou, para se encontrar com Pútin no final de outubro, é outra feliz coincidência. Além de executar as tarefas mais delicadas da liderança norte-americana, Kissinger representa a poderosa Kissinger Associates, uma espécie de pedaço do sistema financeiro global cujo foco está em projetos de petróleo e gás. Sem a sua “aprovação informal”, dizem, não acontecem muitas das transações globais.

Para finalizar, no dia 12 de novembro, Khodorkóvski foi persuadido a escrever uma carta de perdão. Um pouco mais tarde, a Rosneft assinou com a ExxonMobil mais um pacote de acordos importantes no campo da produção de petróleo com recorrência à moderna tecnologia norte-americana. Todas essas coincidências sugerem que, no mínimo, Moscou e o Ocidente mantêm canais de alto nível de interação de confiança que não deixam as relações entrar em uma histeria desenfreada.

Mas o que espera Khodorkóvski agora? Talvez ele esteja comprometido com algumas obrigações, como ficou claro em sua coletiva de imprensa em Berlim. Paralelamente, Khodorkóvski não pode se engajar em atividades políticas, especialmente ao “estilo Naválni”. Ele deixa de ser, então, perigoso política e juridicamente.

A saída em liberdade, depois de dez anos de prisão, é uma espécie de choque do qual Khodorkóvski ainda precisa se ​​recuperar. Ele esteve na cadeia o mesmo tempo que foi rico. É possível que a terceira parte do seu drama pessoal seja simplesmente a reclusão. E essa seria a continuação mais compreensível.

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