Ameaça entre velhos amigos

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Nem sistema de defesa americano na Europa nem resposta russa apresentam risco real para qualquer uma das partes. A arena mundial de conflito no século 21 está em outro lugar – no Oceano Pacífico.

Não tem nada de estranho no fato de a Rússia ter colocado mísseis balísticos móveis de teatro de operações “Iskander” nas fronteiras da União Europeia. Os dirigentes russos tantas vezes prometeram instalá-los em resposta ao sistema de defesa antimíssil da Europa, de modo que isso estava para acontecer em algum momento.

A discussão sobre a segurança europeia deprime. Omundomuda. AEuropasetornaperiferia estratégica. Na Ásia Oriental, uma série de contradições amadurecem. A declaração de Pequim sobre a zona de controle de defesa área no mar da China Oriental causou um rebuliço na região e além. A península da Coreia está em constante tensão e preparação para guerra. O que dizer sobre o Oriente Médio, onde de repente pode se iniciar a reconstrução de fronteiras – Síria, Iraque e adiante por todos os lugares.

Nesse contexto, a Rússia e a ONU continuam a franzir a testa um para o outro e a trocar gestos simbólicos. E eu arrisco a supor que nem mesmo os mais convencidos falcões do Pentágono ou da Praça Arbatskaia estão em posição de imaginar que a Europa arderá em um conflito armado com a participação de grandes potências.

Aliás, por isso mesmo tão tranquilamente, sem olhar nas possíveis consequências, se põem a agir – seja ao colocar o sistema de defesa antimíssil americano na Europa ou a resposta russa de instalar mísseis balísticos ao longo da zona de responsabilidade da Aliança. Sendo o confronto real, pensariam cem vezes antes.

Aos estrategistas militares e profissionais, é típico olhar para o passado. Eles se preparam para guerras que conhecem, e veem o inimigo com que já se acostumaram. A Rússia, pelo menos, faz isso honestamente. Os EUA o faz, camuflando uma nostalgia de Guerra Fria com a ameaça mitológica de mísseis iranianos.

Mas a arena mundial do século 21 está em outro lugar, no Oceano Pacífico. Isso significa dizer que os Iskanderes vão ameaçar os inimigos apenas simbolicamente. As possibilidades reais têm que ser intensificadas no Extremo Oriente, para que pelo menos se lembrem de nós lá.

Fiódor Lukianov é presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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