De volta para o futuro nuclear

Ilustração: Konstantin Maler

Ilustração: Konstantin Maler

Restauração das armas nucleares russas garantem manutenção da paz global e futuro estável.

Apesar de a Doutrina Militar do país enfatizar a importância das armas nucleares para a defesa e segurança, fica-se com a sensação de que, nos últimos anos, seu papel vem sendo desvalorizado, e as palavras sobre as armas nucleares vêm se tornando uma espécie de ritual e homenagem ao passado.

Mesmo assim, as forças nucleares estratégicas têm sido a única garantia da segurança da Rússia. Será que o país precisa mesmo aumentar seus arsenais de armas convencionais? Ou ainda mais importante: é necessário comprar um porta-helicópteros anfíbio do tipo Mistral ou retomar a produção de mísseis de médio alcance como Pioner?

"A Rússia não deve menosprezar a experiência do período soviético. Embora seu arsenal nuclear tenha sofrido danos consideráveis no período pós-soviético, ele continua sendo grande e se mantém em segundo lugar no mundo com grande avanço em relação ao terceiro lugar. Se otimizar as atividades militares, com destaque para o fator nuclear na política de dissuasão global e regional, os 20 trilhões de rublos destinados à construção de novos blindados e aviões de combate podem ser canalizados para a esfera social".

Pelas declarações de autoridades russas e especialistas militares, as estruturas responsáveis pela segurança do país subestimam o significado de seu arsenal nuclear. Por alguma razão, muitos esquecem que a dissuasão nuclear não é uma oposição hipotética a um inimigo potencial, mas um meio específico de evitar a guerra.

Ninguém em sã consciência vai querer provocar um país que seja capaz de promover retaliações com mísseis nucleares. Também mão é à toa que os EUA têm tomado medidas coerentes para reduzir o máximo possível o arsenal nuclear da Rússia (e, parcialmente seu, para criar a ilusão de uma parceria justa) a fim de minimizar o risco de retaliação ao primeiro golpe.

A Rússia está copiando a organização militar dos EUA, tentando criar um comando cibernético e aviação não tripulada e comprando navios de guerra no exterior. No entanto, as tentativas de jogar pelas regras americanas em seu campo estão fadadas ao fracasso. Em primeiro lugar, temos um potencial econômico, científico e tecnológico diferente. Em segundo lugar, temos o sentido sistêmico das Forças Armadas diametralmente oposto.

As Forças Armadas americanas têm realizado operações militares reais em todo o mundo, de modo que precisam de armas convencionais modernas, incluindo aviões de ataque, veículos aéreos não tripulados e sistemas cibernéticos. Já as Forças Armadas russas não têm necessidade vital de tais armas. Claro que a nanoblindagem seria bem vinda nas tropas russas, mas 500 mísseis balísticos de médio alcance Pioner tornam desnecessário seu uso em campos de batalha reais. 

Segundo os planos de rearmamento das Forças Armadas russas até 2020, aprovados ainda durante o mandado presidencial de Dmítri Medvedev, a atualização tecnológica da Marinha custará 4,5 trilhões de rublos (o equivalente a US$ 135,5 bilhões). Esses recursos seriam suficientes para relançar a produção de mísseis Pioner com um alcance de cinco a seis mil quilômetros para defender o país contra todas as ameaças potenciais no espaço entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e o Japão.

Para justificar a compra dos porta-helicópteros Mistral, as autoridades russas pretendem explicar ao Japão que suas reivindicações territoriais sobre as ilhas Curilas não podem ir além das atividades diplomáticas. Mas, para tanto, bastaria dizer que quaisquer hostilidades serão retaliadas com um ataque de mísseis a partir do interior do país contra os alvos no território do agressor. Será que, nesse caso, ele se atreveria a testar a eficácia de seu escudo antimíssil?

Em um primeiro momento, essa posição linha dura causaria um escândalo e uma histeria antirrussa no mundo, mas os mísseis protegeriam o Extremo Oriente muito melhor do que a Frota do Pacífico. Os mísseis dariam segurança ao país em todas as outras direções: sul, oeste e norte.

No entanto, os planos militares da Rússia não dizem nada sobre a restauração das Forças Nucleares Estratégicas. Isso pode ser explicado tanto pelas restrições impostas pelos acordos internacionais, quanto pela proibição de exportar mísseis.

Os aviões de caça de quinta geração devem garantir à Rússia a supremacia aérea. Na verdade, nenhum avião de caça a jato soviético lutou para defender o espaço aéreo do país. O mesmo pode ser dito sobre os blindados, peças de artilharia e navios de guerra, tirando a participação de material de guerra russo em conflitos locais no exterior. Portanto, gerações inteiras de material de guerra russo combateram apenas em exercícios militares, enquanto a estabilidade e a paz foram mantidas sempre pelas armas nucleares estratégicas.

A Rússia não deve menosprezar a experiência do período soviético. Embora seu arsenal nuclear tenha sofrido danos consideráveis no período pós-soviético, ele continua sendo grande e se mantém em segundo lugar no mundo com grande avanço em relação ao terceiro lugar. Se otimizar as atividades militares, com destaque para o fator nuclear na política de dissuasão global e regional, os 20 trilhões de rublos destinados à construção de novos blindados e aviões de combate podem ser canalizados para a esfera social.

 

Serguêi Brezkun é professor na Academia de Ciências Militares da Rússia

 

Publicado originalmente pelo VPK

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