Snowden, o Soljenítsin da atualidade

Ilustração:  Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Revelações do ex-consultor da CIA o aproximam do famoso escritor dissidente russo.

A entrevista que Snowden deu ao “New York Times”, explicando suas ações e negando os rumores sobre o repasse de informações secretas dos EUA a espiões chineses e russos, chegou tarde demais. Foi publicada meses depois do pico da histeria em torno de Snowden, que culminou neste verão em um pouso forçado do avião do presidente boliviano. Da mesma forma, o retorno de Soljenítsin para a Rússia em 1994, vinte anos após o seu exílio da União Soviética em 1974, foi visto por muitos como um retorno tardio – se ao menos ele tivesse voltado entre 1989 e 1991, quando as grandes mudanças políticas ocorriam na Rússia devido à queda da União Soviética.

Na entrevista ao NYT, Snowden explicou que não considerava sua ação como antiamericana e que não carregava consigo quaisquer documentos confidenciais após a divulgação da informação sobre os programas de vigilância da NSA aos jornalistas em Hong Kong. Ele também se defendeu contra as acusações de trabalhar para os serviços de inteligência chineses ou russos, afirmando ter cautelosamente protegido dados sigilosos dos agentes chineses. Snowden também relatou na entrevista que o NSA estava ciente de que ele não revelara nenhum segredo aos chineses.

Para a reputação de Snowden, essas explicações vieram tarde demais. Durante vários meses, as autoridades norte-americanas organizaram uma campanha agressiva contra Snowden, chamando-o de traidor e insinuando o possível interesse material que ele estaria buscando ao fazer tais revelações em Hong Kong e na Rússia. Soljenítsin também foi muito descuidado em termos de marketing pessoal: em vez de se proteger contra as acusações de traição, feitas pelas autoridades soviéticas, ele sempre falava sobre os problemas globais da Rússia e do mundo em geral e nunca revelava detalhes de sua vida pessoal.

A diferença entre Soljenítsin e Snowden está na forma, e não na substância. Nos anos 1950 e 1960, quando Soljenítsin escreveu seus melhores livros, as pessoas ainda liam romances epistolares, com cartas escritas por um autor de ficção. Nos tempos de Snowden, o povo prefere a realidade crua: e-mails de verdade vazaram na internet. É assim que as coisas acontecem hoje em dia, e o movimento dos gêneros literários é agora mais rápido do que em qualquer outro período da história humana.

Por outro lado, a principal semelhança foi a reação das autoridades. Tanto as autoridades soviéticas, em 1970, quanto as americanas, em 2013, não negaram a veracidade das revelações. Em vez disso, apenas disseram nos dois casos que os autores estavam apresentando fenômenos atípicos como sendo típicos.

Leonid Brejnev, líder soviético da década de 1970, não podia negar a existência dos campos de concentração de Stálin que Soljenítsin descreveu em seus romances. De um modo geral, o KGB estaria apenas nos protegendo dos espiões estrangeiros. Igualmente, os defensores do NSA nos EUA disseram que o PRISM estava somente mirando terroristas. Assim, foram pedidas desculpas aos cidadãos pacíficos que, por vezes, acabaram tendo suas conversas interceptadas, mesmo que os “erros individuais” fossem poucos – assim como na revelação de Soljenítsin sobre o “arquipélago” de campos de trabalho forçado.

Tanto Soljenítsin como Snowden foram acusados ​​por alguns de seus compatriotas de revelar suas descobertas a estrangeiros, e não aos próprios oficiais internos. Vários deputados lamentaram que Snowden “não tivesse usado o caminho do Congresso”, por exemplo.

Por isso, Soljenítsin foi acusado pelas autoridades soviéticas de se comportar como um espião estrangeiro. As pessoas que o ajudaram a transportar os manuscritos de suas novelas no exterior tiveram problemas com o KGB, assim como as autoridades americanas e britânicas pressionaram o jornalista do “The Guardian” que levou a mensagem de Snowden ao mundo inteiro.

 

Dmítri Babitch é analista político da estação de rádio Voz da Rússia.

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