Liberdade e liberalismo no caso russo

Ilustração: Ígor Demkóvski

Ilustração: Ígor Demkóvski

Os especialistas Zakhar Prilépin e Dmítri Gúbin analisam tais conceitos na vida e na política da Rússia.

A partir do início dos anos 1990, a Rússia começou a agradar à iluminada comunidade liberal: está integrada no sistema político, financeiro e bancário mundial, com direitos de parceria, tendo deixado de constituir o centro de força que se opunha a toda a comunidade civilizada.

Sem dúvida que adquirimos liberdades fundamentais chamadas liberais: qualquer pessoa (que possua os meios para isso) se translada livremente pelo país e fora dele, existem centenas de meios de comunicação social bastante independentes – pelo menos pela rede, os habitantes da Federação da Rússia e quem nos visita podem entrar em qualquer negócio legal e dispor livremente do dinheiro assim ganho, bem como transferi-lo para o estrangeiro em benefício muito próprio. Têm acesso a toda a literatura e música. Existe um cinema independente, e um teatro ainda mais independente. Surgiram clínicas privadas, universidade e escolas privadas, além de outras instituições e empresas que prestam serviços privados. A concorrência no ramo dos serviços salta à vista.

Olhando com mais atenção, é pouco provável encontrar alguém ousando afirmar que a Rússia, como país liberal que é, se distingue radicalmente em algo dos outros países que também escolheram a via de desenvolvimento liberal, particularmente, Hungria, Lituânia, Letônia, Moldávia, Roménia, Polônia, Turquia, Ucrânia e República Checa.

Entretanto, os iluminados liberais russos preferem se virar para países como a Suíça, ainda que não seja muito claro o que é que nos aproxima tanto, seja em sentido nacional, histórico ou geográfico, para podermos alcançar os mesmos êxitos que aquele país realmente confortável alcançou. Porventura, melhor seria que atentássemos para países como Grécia, Itália ou Espanha –todos eles à beira do colapso econômico e com inúmeros problemas sociais– como modelos mais acessíveis para levar a bom porto reformas liberais.

Temos um alto nível de corrupção. No mundo, porém, há muitos países tipicamente liberais com um nível assustador de corrupção.

Temos presos políticos, incluindo conhecidos meus, que até defendem ideias antiliberais. Fará algum sentido pensar que, nos outros países liberais, os manifestantes contra o governo são encarreirados para o parlamento em vez de serem colocados na prisão?

Temos certos problemas nos meios de comunicação social, alguns jornalistas até são obrigados a pedirem demissão. Ora, no mundo liberal também há temas tabus e até jornalistas que estão em verdadeiras prisões de pedra por violarem esses tabus.

O país mágico chamado EUA não deixa de ser o centro do liberalismo mundial, independentemente de quem esteja no poder: os carinhosos democratas ou os severos republicanos, os adeptos da Bíblia ou os das armas automáticas.

O nosso presidente está rodeado de uma equipe liberal e quase todos aqueles que lhe estão mais próximos podem participar de um comício da Praça Bolótnaia defendendo os mesmos valores liberais.

Falta à Rússia dividir o Parlamento em democratas e republicanos e passar o poder de uns para os outros assinando um pacto de não agressão. E digo que já não falta muito para tal. Quanto a mim, não quero que isso aconteça. Não quero viver nesse liberalismo.

A todos nós, liberais ou antiliberais, faltam tribunais honestos e rampas para deficientes, um sistema eleitoral que funcione e uma polícia normal, proteção social e assistência médica razoáveis, mas quem disse que estes são sinais de liberalismo?

Os liberais estão convencidos de algumas coisas bem curiosas.

Um país que vive à custa do seu petróleo e gás (conseguidos através de uma política estatal russa que nada tinha de liberal), vive graças ao trabalho incansável dos liberais e lhe deve estar grato por isso.

Tudo o que existe de bom no mundo (liberdade, pastilhas elásticas, vinho, eleições, boa literatura, sorvetes, flores) é de origem liberal, enquanto tudo o que existe de mal (guerra, prisão, emigração, cinema peseudo-patriótico, botas da tropa) é de origem antiliberal.

Não lhes passa pela cabeça que a guerra, a falta de rampas, a perseguição étnica e o cinema pseudo-patriótico são coisas bem enraizadas em países liberais, enquanto a China tem uma invejável indústria automóvel e em Cuba há desfiles gays e filmes sem limitações; sobre alguns dos êxitos da URSS, nem abrimos a boca, para evitar criar problemas.

Liberdade não é sinônimo de liberalismo, sendo muitas vezes um antônimo. Há destes paradoxos filosóficos. Um elevado nível de vida também não é sinônimo de liberalismo. A independência estatal não é, definitivamente, sinônimo de liberalismo: olhe à sua volta, que haverás de compreender.

 

Zakhar Prilépin é publicista e autor dos livros "Patologia" e "Pecado", entre outros.

 

Publicado originalmente em Svpressa.ru

 

Confira a opinião contrária na próxima página.

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Entre a liberdade e a ordem

Dmítri Gúbin, especial para a Gazeta Russa

Ser liberal na Rússia de hoje é uma coisa triste. Numa autocracia, o interesse primeiro do povo é sobreviver. O povo considera inconveniente beliscar o poder, o qual, como sinceramente pensa, lhe está dando de comer.

Ora, quando digo que liberalismo é uma ideia na qual assenta a possibilidade de um homem mudar para melhor sem ser forçado, quando digo que a aspiração à liberdade é inata ao homem, me olham com desconfiança na Rússia. Quando digo que um homem livre pode se sustentar por si próprio, começam a me encarar com ódio. Como quem diz: já vivemos a tua liberdade, a de Gorbatchov! Foi na altura em que o país foi destruído e roubado! Não queremos mais disso!

“Liberdade”, para a maioria dos Russos, significa criminalidade, fragmentação, desmoronamento. Enquanto “ordem” é sinônimo de submissão ao poder e limitação da liberdade individual em prol da grandeza do Estado, do poder absoluto do czar, mesmo que a este chamem presidente. Como bem notou um historiador especialista em eslavismo, Richard Pipes, na Rússia, entre “liberdade” e “ordem”, se escolhe sempre a “ordem”, sem se entender que é uma opção errada.

Em outras palavras, os russos odeiam os liberais sem nada saber desta corrente. Poucos são os meus discípulos da Universidade de Moscou, onde leciono um curso de jornalismo radialista, que conhecem Pipes. Tampouco ouviram falar de Noam Chomsky, que descreveu em pormenor, há meio século, alguns modelos de Estado, incluindo o liberal, em “O Estado do Futuro”. O nível do conhecimento dos meus discípulos é inferior ao de quando eu era estudante. Porventura, foi por isso que no seio da sociedade soviética, que ansiava pelo conhecimento, surgiu a ideia liberal, exigindo o fim da censura e a abertura ao empreendimento privado, o que viria a destruir a URSS. Um conservador convicto russo é, geralmente, inculto, pelo que aceita mitos como fatos.

Outra razão ainda por que sou liberal: é entediante estar com quem não quer saber nada.

Existe, ainda, uma terceira razão: não acho que a conduta moral deva ter por base a intuição e a emoção. Se alguém se atira impulsivamente para salvar o próximo num acidente rodoviário, isso lhe pode causar a morte com seu impulso. A  sobrevivência se apoia no conhecimento. Que cirurgião prefere você: o sincero ou o competente?

Provavelmente, esta complicação, acrescida da aceleração do avanço técnico, faz com que muitos se agarrem ao conservadorismo, mesmo quando esse se baseia em mitos. Por exemplo, defendem a “tradição familiar histórica” sem se importar com a história social da família. E assim aparecem aqueles que, digamos, se refugiam na “simplicidade natural”, no “século do ouro”, “na infância da humanidade”. Ainda que qualquer antropólogo tenha consciência da aberração que era tal infância.

O fato de se agarrarem a “costumes” fictícios seria curioso, como qualquer extravagância, se não fossem os tentadores ideológicos. Estes sabem moldar o medo dos confusos em fórmulas de salvação –na Rússia, normalmente, isso se relaciona com a aniquilação dos inimigos. O inimigo é aquele de origem alheia, fé alheia, sentimentos alheios, ou aquele que constrói a vida de forma diferente: resumindo, um “liberasta”. É ele a causa de todos nossos males. Portanto, há que atirá-lo às feras!

Um desses tentadores sinceros da Rússia de hoje é o escritor talentoso Zakhar Prilépin, cujo talento contém uma grande dose de sinceridade. Levou muita pancada (foi membro do partido dos nacionalistas bolcheviques, proibido, conheceu a prisão e sofreu as arbitrariedades policiais), e agora se pôs a cantar hossanas aos que deixam que o destino os conduza na vida, aos que julgam ter razão simplesmente porque pertencem à maioria. Os contos e novelas de Prilépin, de uma sinceridade que chega a ser fisiológica, elevam a herói um arruaceiro russo nosso contemporâneo.

Até os intelectuais exultam, por vezes, com a graça natural dos jovens animais, despidos de instrução, de cultura, de reflexão.

Todavia, é bom que se separe o prazer estético suscitado por um camponês suado de enxada na mão da tentação de fazer dele o centro do mundo, estigmatizando de inimigos os que não são assim, os que são diferentes. Acho que coisa parecida aconteceu no Camboja no tempo de Pol Pot.

É esta a razão final de eu ser liberal, mesmo não tirando proveito algum das minhas convicções. 

 

Dmítri Gúbin é apresentador de TV e colunista das revistas GQ e Ogoniok, além de colaborador do jornal Kommersant

 

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