Rússia, ONU e EUA tentam salvar Genebra 2

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

O fim do ano, dado como prazo limite para a realização da conferência Genebra 2, é também um limite simbólico. Se esse prazo for ultrapassado, a impotência dos capacetes azuis poderá se transformar em uma 'somalização' da Síria, ou seja, um colapso descontrolado do Estado.

A conferência de paz Genebra 2, onde se espera encontrar soluções para a resolução da questão da Síria, está à beira do colapso. Os representantes das Nações Unidas, da Rússia e dos Estados Unidos foram incapazes de chegar a um acordo no que se refere à data da sua concretização, embora esperem que ela possa ocorrer ainda antes do final do ano, disse terça-feira o mediador especial da ONU e da Liga dos Estados Árabes, Lakhdar Brahimi.

Os participantes das conversações preparatórias, que ocorreram em Genebra, foram bastante limitados com comentários referentes às discordâncias que persistem entre as partes. Uma delas foi o tema da participação do Irã na próxima conferência. A Rússia é a favor, os Estados Unidos, contra. Também contra está a Arábia Saudita, embora esta esteja envolvida no conflito sírio no mesmo grau que o Irã –através do apoio das partes em conflito. Os EUA, aparentemente, não estão dispostos a aumentar a legitimidade e o prestígio internacional que Teerã  poderá receber com sua participação na conferência.

Formalmente, a questão é que o Irã não aderiu ao documento de Genebra sobre a Síria, que é a base para os próximos passos do acordo político, em 2012. Mas isso não é o principal. A oposição síria, ou melhor, as facções que estão em conflito aberto com o regime de Assad que têm o apoio de Riad e que são reconhecidas pelo Ocidente, não querem a realização da conferência.

Elas querem garantias de que a sua participação em Genebra 2 implicará o afastamento do presidente sírio do processo de um acordo político. No entanto, um dos principais negociadores russos para a questão da Síria, o vice-chanceler russo Mikhail Bogdanov, referiu que "existem dúvidas se todos querem realmente um acordo político. Existem, evidentemente, forças no campo da oposição –e eu não estou falando de militantes nem de grupos radicais terroristas– que apostam tudo apenas na linguagem da força e na continuação da guerra. Infelizmente, existem forças externas que alimentam tais sentimentos não apenas do ponto de vista moral e político, mas também financeiramente."

De acordo com a distribuição de papéis na execução da iniciativa russo-americana de realização da conferência de paz sobre a Síria, Moscou assumiu o encargo de assegurar a presença de uma delegação de Damasco e os Estados Unidos de outra da oposição unida. Moscou foi bem sucedido e Assad concordou em ir, mas os Estados Unidos encalharam claramente pelo caminho. Reunir centenas de grupos, pequenos e grandes, muitos dos quais antagônicos e às vezes em conflito aberto entre si, é extremamente difícil. Mas sem esta reunião não pode haver paz na Síria.

Guennadi Gatilov, também vice-chanceler russo e supervisor para a questão síria, disse que os EUA "não têm alavancas de influência suficientes que lhes permitam consolidar a oposição. Não basta ter uma representação da oposição, mas a participação do maior número possível de forças da oposição”. “Isso, por enquanto, os norte-americanos não conseguiram fazer.”

Nos próximos dias, a Coligação Nacional da oposição síria deverá, segundo os cálculos de Washington, decidir se participa ou não de Genebra 2. De acordo com um alto diplomata não identificado dos EUA, "a oposição síria tomou consciência de que, para um fim mais rápido do conflito, não existe alternativa às negociações políticas. E podemos ver agora nas fileiras da oposição síria uma atitude mais séria do que, digamos, quatro ou cinco meses atrás". Talvez os norte-americanos consigam inverter a situação, mas não há garantias de sucesso.

Aparentemente, se prevenindo de uma possível falha dos parceiros norte-americanos sobre o acordo da Síria, Moscou está tentando criar uma trilha paralela com a participação da oposição mais voltada para as negociações do que para a continuação dos massacres.

Diplomatas russos realizaram uma série de encontros em Genebra com o chefe da ala externa do Comitê de Coordenação Nacional, com os curdos sírios, com o tio oposicionista de Bashar al-Assad, Rifaat al-Assad, bem como com representantes da coalizão secular democrática do povo sírio.

Talvez tenha sido precisamente o resultado dessas reuniões que permitiram que Mikhail Bogdanov anunciasse que Moscou está pronta para acolher uma reunião do governo com a oposição da Síria com a inclusão de parceiros estrangeiros. "Nós usamos a reunião de hoje para explicar mais objetiva e integralmente a nossa iniciativa de realizar em Moscou contatos informais entre os representantes da oposição síria com o governo, com a participação dos nossos colegas norte-americanos e da equipe do mediador especial da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi."

Muito dependerá das próximas duas semanas. No dia 25 de novembro, acontecerá de novo em Genebra uma reunião preparatória tripartida com diplomatas dos Estados Unidos, da Rússia e da ONU.

Questão humanitária

Enquanto isso, a situação humanitária na Síria está se deteriorando rapidamente. O fim do ano, dado como prazo limite para a realização da conferência Genebra 2, é também um limite simbólico. Se esse prazo for ultrapassado, a impotência dos capacetes azuis poderá se transformar em uma 'somalização' da Síria, ou seja, um colapso descontrolado do Estado.

"A situação é muito ruim”, sublinha Brahimi. “Em média, 6.000 pessoas estão saindo do país por dia. Quase um terço da população da Síria já sofreu com o conflito, tendo se deslocado para outras regiões do país ou adquirido o estatuto de refugiadas. Atualmente a ONU diz que mais de 9 milhões de pessoas estão sendo diretamente afetadas pelo conflito, que já perfaz quase metade da população da Síria."

 

Andrêi Iliachenko é colunista da rádio “Voz da Rússia” sobre questões do Oriente Médio


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