O ciberespaço pós-Snowden

Ilustração:  Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

EUA e Rússia precisam se engajar para criar clima de colaboração e evitar guerra cibernética.

A notícia de que a Rússia concedeu asilo temporário a Edward Snowden é geralmente discutida no contexto dos potenciais efeitos da decisão sobre as relações russo-americanas. Sem dúvida, o caso Snowden desencadeou uma série de efeitos adversos.

Levando em conta as revelações do ex-agente da CIA, promotores russos estão investigando os serviços do Google e do Facebook na Rússia. As autoridades suspeitam que ambos violem os acordos internacionais sobre a proteção de dados pessoais.

O avanço dessa situação ameaça originar uma atmosfera tóxica de longo prazo nas negociações bilaterais em torno de várias questões delicadas. Entre elas, o intercâmbio de agentes descobertos, a análise dos pedidos para divulgação de informações sobre cibercriminosos e suspeitos de terrorismo, ou a troca das práticas mais eficazes das agências de inteligência norte-americanas e russas no trabalho com grandes volumes de dados.

Além disso, a Rússia agora pode esquecer as perspectivas de retorno de Víktor Bout ou outros russos que estão enfrentando processos judiciais nos Estados Unidos. A Casa Branca, por sua vez, perdeu o poder de instigar seus principais valores na Rússia – a liberdade na internet e a proteção dos direitos dos usuários, gravemente comprometidos pelas revelações de Snowden.

"Apesar do efeito das revelações do ex-agente da CIA, os Estados Unidos e a Rússia precisam se engajar para estabelecer um clima de boa vizinhança e colaboração no ciberespaço, ainda que envolto por críticas e acusações pesadas"

Quem sabe quantos segredos mais o “ex-prisioneiro do aeroporto moscovita de Sheremetievo” tem guardado, ou quão difícil será para ele resistir à tentação de compartilhá-los com os serviços de inteligência russos?

Mas tudo é muito complexo e dramático. Será que o asilo concedido a Snowden realmente traça uma linha vermelha nas relações russo-americanas?

Em primeiro lugar, a decisão russa de conceder asilo temporário a Snowden envia à Casa Branca um sinal claro de que a Rússia está disposta a negociar ainda mais: “Podemos abrigá-lo temporariamente, mas deixe-nos pensar além disso”.

Cabe lembrar a condição, anunciada pelo presidente Vladímir Pútin no mesmo dia em que os boatos sobre a possibilidade de asilo vieram à tona, de que o foragido deveria “parar de prejudicar os interesses dos Estados Unidos”.

O consentimento de Snowden em seguir essa regra está implícito na aceitação do asilo. O governo russo também não vai perder o interesse em acessar as informações que o ex-agente da CIA está segurando, embora o acordo atual sugira que tais dados continuarão a ser um ás na manga diplomática da Rússia – a ser usado em uma hora difícil nas negociações bilaterais com Washington–, e não será compartilhado com a comunidade internacional.

É ainda mais importante ter em mente que as relações russo-americanas são muito diversificadas e estratégicas para serem deixadas de lado por causa de um único escândalo, independentemente de quão forte possa ressoar.

Apesar da tendência negativa nas relações bilaterais com o fim do “reset”, uma série de questões demonstra a enorme capacidade de cooperação duradoura e desenvolvimento construtivo em assuntos intimamente relacionados com Snowden.

A cooperação no ciberespaço, que apresentou recentemente um progresso substancial, é exemplo disso. Em 17 de junho, um dos pontos de discussão da Cúpula do G8, na Irlanda, foi a declaração conjunta emitida por Pútin e Obama sobre as medidas de reforço da confiança no ciberespaço, que incluíram três acordos.

Estados Unidos e Rússia são agora obrigados a manter contato constante sobre cibercrimes e tentativas de ciberataques para reforçar a cooperação na resposta a tais incidentes, bem como fazer uso de uma linha direta para avisar um ao outro sobre alguma emergência.

Simbolicamente, os mecanismos de notificação mútua serão parcialmente implementados por meio da já existente linha Moscou-Washington para o aviso de ocorrências com armas nucleares, a mesma usada durante a Guerra Fria.

A continuidade dos acordos exemplifica a crescente importância estratégica da cooperação russo-americana no ciberespaço. Os dois lados chegaram a um acordo sobre a questão, mesmo em meio a condições desfavoráveis nas relações bilaterais – embora haja dúvidas sobre até onde essa cooperação seria sacrificada por causa do recente escândalo diplomático.

Apesar do efeito das revelações do ex-agente da CIA, os Estados Unidos e a Rússia precisam se engajar para estabelecer um clima de boa vizinhança e colaboração no ciberespaço, ainda que envolto por críticas e acusações pesadas. A colaboração pode ser reduzida ou suspensa em alguns aspectos, mas as medidas de confiança devem ser desenvolvidas como um dos mecanismos viáveis para prevenir uma guerra cibernética. Isso é algo que tanto o Kremlin como a Casa Branca entendem bem.

 

Oleg Demidov é coordenador de projetos em segurança e governança no Centro de Estudos Políticos da Rússia.

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