O excepcionalismo norte-Americano

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Um trecho do recente artigo opinativo do presidente russo Vladímir Pútin sobre a Síria publicado no “The New York Times” causou grande agitação nos círculos intelectuais. Foi o trecho final, no qual escreveu sobre o excepcionalismo americano.

“É perigoso encorajar pessoas a se verem como excepcionais, seja qual for a motivação”, lê-se ali. “Existem países grandes e pequenos, ricos e pobres, aqueles com longas tradições democráticas e os que continuam em busca do caminho para a democracia. Suas políticas também são diferentes. Somos todos diferentes, mas quando pedimos a bênção de Deus, devemos nos lembrar que Ele nos criou como iguais.”

Pútin não questionou explicitamente as credenciais dos EUA para reivindicar o excepcionalismo, mas essa é a questão primordial. 

A crença americana em sua própria excepcionalidade não resiste à análise. Os EUA possuem uma média de 87 assassinatos por dia. São recordistas mundiais no número de guerras e atos de agressão. O país foi o único a usar armas nucleares. Tudo isso faria dos EUA “excepcionais”, no sentido negativo.

Washington cobra “valores” de forma seletiva. Existe um critério para o Irã e outro para a Arábia Saudita; uma reação ao Bahrein e outra completamente diferente à Síria; normas exigentes para Gaza, mas total condescendência para os atos de violência de Israel.

A noção de excepcionalismo impeliu os EUA a agir à revelia da lei internacional e da Carta das Nações Unidas, o que abre precedentes perigosos e enfraquece o organismo mundial que continua sendo o único fórum disponível para promover a paz e o desenvolvimento. 

A alegação do presidente Barack Obama de que os ideais e princípios americanos fazem o país ser “diferente” e “excepcional” constitui uma doutrina perigosa. A crença em si mesmo como sendo algo “excepcional” é sempre preocupante devido ao perigo de impelir ao uso excessivo da força. Baía de Guantânamo e Abu Ghraib são lembranças vivas de crimes horríveis cometidos pelos EUA no impulso de ações empreendidas sob o pretexto do excepcionalismo.

As intervenções militares na soberania dos países frequentemente acabam agravando situações que já eram complicadas – Haiti, Libéria, Somália, Afeganistão e Iraque são exemplos. É isso que faz do problema da Síria uma questão de grande importância. 

Indiscutivelmente, o excepcionalismo americano abriu o caminho para a trágica guerra civil na Síria. Graças à oportuna iniciativa diplomática da Rússia, outra intervenção militar direta do governo de Obama foi impedida. Agora, é preciso encontrar uma forma de a Síria recuperar sua excepcional identidade de sociedade secular e plural onde muitas identidades religiosas e étnicas coexistiam pacificamente.

 

M. K. Bhadrakumar é um ex-diplomata indiano, articulista e analista de relações internacionais.

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