Esforço coletivo pela paz mundial

Ilustração: Niiaz Karim

Ilustração: Niiaz Karim

Reaproximação dos EUA e Rússia para solucionar crise síria pode gerar efeitos positivos que ultrapassam o fim do conflito.

A mais recente proposta de colocar as armas químicas da Síria sob controle internacional e posteriormente destruí-las mudou drasticamente os termos do debate sobre o conflito na região. O jornal “The New York Times” ressaltou, com razão, que essa iniciativa “poderia abrir um canal mais amplo para o acordo político entre Assad e os rebeldes – a única maneira prática de acabar com essa guerra”. Mas as consequências positivas de sua aplicação vão ainda mais longe. De um modo geral, essa decisão não tem apenas a ver com a Síria. Trata-se de trazer de volta a confiança, perdida em muitos aspectos ao longo dos últimos 20 anos.

Concordo com Gideon Rachman, do “Financial Times”, que escreveu em seu blog: “Os russos deram um passo em direção aos EUA na questão síria. Agora, os norte-americanos devem responder”. Essa mensagem é o principal ponto do presidente russo Vladímir Pútin em seu apelo direto ao povo americano, publicado no NYT na semana passada. Infelizmente, em nossas relações bilaterais, chegamos ao ponto em que o discurso deve ser feito diretamente para o público.

Conforme apresentado no “Financial Times”, pode parecer difícil compreender os motivos subjacentes à iniciativa de Moscou, uma vez que “o líder russo não está inclinado a fazer favores para Obama”. Esse tipo de estereótipo faz as pessoas acreditarem que Moscou supõe que irá ganhar com qualquer resultado na Síria, mesmo desastroso, e até prefere observar o governo americano se autodestruir na Síria, bem como no Oriente Médio de uma forma geral.

É também uma maneira simples de evitar uma análise séria dos dilemas insolúveis na Síria, enfrentados não apenas pelos EUA, mas pela comunidade internacional como um todo. Não é culpa da Rússia que o momento e o contexto regional não estejam do lado da oposição. Nosso esforço diplomático baseia-se no reconhecimento da morte da antiga geopolítica, o que levou a erros como a Guerra da Crimeia, tragédias como as duas guerras mundiais e a consequente Guerra Fria. A Rússia não busca o conforto da liberdade de ação garantida pela indiferença.

A falta de comunicação entre as nossas sociedades é um problema elementar. Em sua pesquisa sobre Dostoiévski (2008), Rowan Williams concluiu que a comunicação humana é um dos aspectos essenciais da vida. A infinidade da narrativa humana está intrinsecamente ligada a uma questão de liberdade. Portanto, procuramos restaurar os canais de comunicação e derrubar as barreiras do preconceito ideológico da Guerra Fria. Mais especificamente, propomos uma ação coletiva por meio da Organização para a Proibição de Armas Químicas e do Conselho de Segurança da ONU.

Uma guerra por procuração entre as potências regionais e a ação militar estimulada por potências de fora não são nenhum substituto para a solução regional da crise. Foi por isso que o presidente Pútin, na qualidade de anfitrião da cúpula do G20 este ano, fez o melhor para que os seus colegas tivessem uma discussão profunda em torno da questão síria fora da agenda formal. As conversações de Genebra entre o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguêi Lavrov, e John Kerry tem potencial para se tornarem uma virada crucial não apenas na Síria, mas muito além. Por isso é tão importante seguir o roteiro acordado e cumprir as metas estabelecidas.

 

Aleksandr Iakovenko é embaixador da Rússia no Reino Unido e ex-vice-ministro dos Negócios Estrangeiros.

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