EUA toma a frente na mediação do conflito entre israelenses e palestinos

Ilustração:  Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

A incapacidade dos representantes internacionais do Quarteto (UE, Rússia, EUA e ONU) para resolver a situação permitiu a Washington desempenhar um papel fundamental nas novas negociações.

Três anos após o fracasso da conferência de paz entre israelenses e palestinos, os EUA organizaram o reinício do processo de negociação. A incapacidade dos representantes internacionais do Quarteto (UE, Rússia, EUA e ONU) para resolver a situação permitiu  Washington desempenhar um papel fundamental nas novas negociações.

Os EUA tentam monopolizar as negociações de paz no Oriente Médio quase desde o início do conflito. Washington assumiu o papel de pacificador único, tentando convencer o mundo de que apenas eles poderiam fazer árabes e israelenses sentarem à mesa de negociações e persuadi-los a fazer concessões. A "diplomacia pendular" de Henry Kissinger é o exemplo clássico.

É óbvio que há um motivo concreto para os EUA retomarem as negociações. No contexto dos recentes reveses em sua política no Oriente Médio e no declínio de sua influência na região, o progresso na resolução do conflito árabe-israelense é talvez a única maneira de restaurar a sua imagem no Oriente Médio. 

Uma questão importante para os EUA é que o país poderia conseguir uma vitória sem intervenção militar e sem interferir nos assuntos internos das partes do conflito. Exatamente por isso, durante seu segundo mandato, o presidente Barack Obama decidiu "descongelar" as negociações entre palestinos e israelenses para alcançar um acordo de paz. 

O novo secretário de Estado, John Kerry, é responsável pela condução desse processo. Como resultado do sucesso em sua missão de mediador em julho de 2013, israelenses e palestinos concordaram em manter negociações de paz por pelo menos nove meses com o objetivo de resolver o "status final" dos territórios ocupados.

Na mesa de negociação serão apresentadas várias questões difíceis, como a criação de um Estado palestino com as fronteiras de 1967 "tendo em conta as mudanças demográficas".

Os EUA declararam que participarão como coordenadores, mas, mesmo assim, as negociações serão diretas, bilaterais e confidenciais. Segundo as informações provenientes dos altos funcionários palestinos, "até agora não há progresso”. 

"É difícil prever os resultados das novas negociações. Tudo depende da vontade política e da determinação das partes em conflito. Nem EUA, nem Europa, nem Rússia podem forçar as partes a assinar um acordo de paz"

A exclusão da Rússia

Existem duas razões principais pelas quais a comunidade internacional e a Rússia foram excluídas do processo de organização e coordenação dessa conferência. 

Primeiro, com o início da Primavera Árabe, o Oriente Médio se tornou um palco para conflitos e disputas entre as principais potências mundiais, especialmente entre os EUA e a Europa, de um lado, e a Rússia e a China do outro. Devido aos diferentes pontos de vista da Rússia e do Ocidente sobre a situação no Irã, na Síria, e à Primavera Árabe em geral, os EUA tentam reduzir o papel da Rússia na região, enfraquecendo a influência de Moscou entre os aliados da Rússia. 

Em segundo lugar, a recusa de se juntar ao Quarteto e trabalhar junto com a Rússia significa que os EUA querem aumentar sua influência tanto sobre Israel como sobre a Palestina. Os EUA podem ameaçar Israel com o isolamento internacional e ao governo palestino com a possibilidade de diminuir o apoio financeiro caso as novas negociações falhem.

No entanto, é pouco provável que esses dois estímulos possam ser eficazes. Um referendo em Israel (qualquer acordo de paz com os palestinos deve ser submetido a um referendo) poderia matar qualquer progresso em relação às fronteiras de 1967.  

Também é preciso levar em conta a importância da reação extremamente negativa dos estados árabes. Embora a Liga Árabe tenha apoiado a realização das negociações é provável que os países árabes comecem a acusar a Palestina de trair a luta contra o sionismo.

É difícil prever os resultados das novas negociações. Tudo depende da vontade política e da determinação das partes em conflito. Nem EUA, nem Europa, nem Rússia podem forçar as partes a assinar um acordo de paz.

 

Tatiana Karássova é presidente do Departamento de Estudos de Israel e das Comunidades Judaicas do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia.


Publicado originalmente pela Rússia Direct

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