O que a Rússia pode oferecer ao Ocidente

Ilustração: Iólkin

Ilustração: Iólkin

Professor de política russa e europeia na Universidade de Kent discute o papel da Rússia no atual cenário internacional.

Apesar das tentativas do presidente Vladímir Pútin de “normalizar” as relações entre a Rússia e o Ocidente desde os primeiros dias de sua liderança, esse vínculos permanecem essencialmente frouxos. A definição de “normalidade” de Pútin era simples: a Rússia deixaria de ser tratada como um caso especial, passando a ser apenas mais um país soberano e independente.

Para tanto, na primeira oportunidade, o presidente pagou a maior parte da dívida soberana e acabou com várias dependências que se acumularam nos anos 1990, por exemplo, no FMI. Paralelamente, acelerou as dinâmicas de integração que haviam definhado nos anos Iéltsin, incluindo a intensificação das relações com a União Europeia e, após o episódio de 11 de setembro, a tentativa de criar uma parceria de igual para igual com os Estados Unidos. No entanto, logo ficou claro que essa estratégia de normalização não iria funcionar.

A Rússia foi incapaz de se tornar apenas mais uma grande potência. As demandas políticas colocadas sobre o país são grandes, em parte porque a própria Rússia aceitou essas exigências como parte do processo de se tornar um Estado-nação em 1991, e também por causa de sua autoidentificação como um Estado europeu e membro fundamental da comunidade internacional.

As contradições sistêmicas e de identidade que permanecem sem solução na Rússia indicam que as características “anormais” permanecerão nas relações da Rússia com o mundo ocidental em um futuro próximo. O discurso repleto de boicotes e ameaças das potências e ativistas ocidentais apenas agravam as contradições do governo russo, ao invés de ajudar a resolvê-las.

A aceitação da Rússia na comunidade transatlântica foi problemática desde o começo, como já mostrava o discurso do presidente Boris Iéltsin sobre uma “Paz Fria” em dezembro de 1994. Uma das características dessa síndrome é a linguagem absurda de “reinícios e pausas”. Nenhum país normal falaria com os demais nesses termos, e é humilhante para todas as partes envolvidas ter permitido que a situação se degenerasse a tal ponto. No fundo, essa linguagem é mais uma forma de medir o quão longe é preciso chegar até que relações normais possam ser estabelecidas.

É hora de um relacionamento mais maduro ser estabelecido em ambos os lados. Para o Ocidente, apesar de muita conversa sobre a relativa marginalidade e insignificância da Rússia, o fortalecimento da relação é essencial por razões estratégicas, econômicas e diplomáticas. Embora muitos ativistas da sociedade civil e senadores americanos procurem fugir do anonimato ao massacrar a Rússia – e há sempre um longo caminho político a ser explorado por meio dessa atividade –, esse tipo de política é estéril e perigosa.

O problema é que, nos últimos anos, a UE não foi capaz de desenvolver uma voz marcante como um representante elementar das nações europeias e como mediadora na transformação da comunidade transatlântica. Apesar de a Europa ter voz própria, a sua incapacidade de desafiar os erros do poder dominante na hegemonia ocidental sobre um conjunto de questões, incluindo a guerra no Iraque, minou sua credibilidade como um poder normativo.

Obviamente, isso permite à Rússia, em vez de reforçar a marginalidade que os seus adversários querem impor ao país, intervir de maneira positiva para ajudar a resolver alguns dos impasses dentro do próprio Ocidente. A subserviência do modelo britânico à hegemonia norte-americana, por exemplo, não contribui para nada. É dever de um amigo apontar os erros do outro. Assim, a Rússia pode se reposicionar, deixando a posição de encrenqueiro para trás a fim de assumir um papel relevante na solução dos problemas atuais.

Tanto Barack Obama como Pútin entendem que não existe uma divisão ideológica fundamental entre a Rússia e o Ocidente, portanto, falar uma nova Guerra Fria é um equívoco. No entanto, não se pode negar a existência de tensões que fomentam a atmosfera de uma “Paz Fria”.

Partindo do conflito na Síria até o escândalo envolvendo o ex-consultor da CIA Edward Snowden, há um mar de questões nas quais a Rússia se agarra a sua própria visão. Mesmo que um delator não seja naturalmente do gosto de Pútin, a Rússia não foi errada ao conceder asilo temporário a Snowden. Da mesma forma, a análise da crise síria promovida pela Rússia desde o início foi mais precisa do que a abordagem das potências ocidentais.

A questão fundamental é saber se essas diferenças de opinião são normais ou se indicam uma incompatibilidade de interesses estratégicos. Existe pouca evidência sobre este último ponto. Mesmo as tentativas contundentes do Ocidente de promover a desintegração geopolítica do espaço eurasiático não podem ser tomadas como o reflexo de um conflito entre as partes.

Isso é simplesmente o que as potências imperialistas ocidentais sempre fizeram, e continuarão a fazer até que o próprio Ocidente possa instaurar uma verdadeira “fórmula pós-moderna” de política internacional. Afinal, as tradicionais ambições imperiais travestidas de avanço democrático convencem poucas pessoas.

A principal fonte de influência da Rússia hoje é agir como uma força moderadora na política internacional. Enquanto o Ocidente se vê envolvido em alguns problemas internos, a Rússia pode tentar aliviar parte desses conflitos e contradições da política ocidental.

 

Richard Sakwa é professor de política russa e europeia na Universidade de Kent.

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