Quatro saídas para a Tunísia

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Depois da revolução no Egito, Tunísia é o próximo país árabe em busca de mudanças decisivas.

O último golpe militar no Egito colocou a comunidade internacional em uma posição pouco cômoda. Em 2011, o Ocidente apoiou a revolução e viu suas ideais soarem na Praça Tahrir, no Cairo. Após a queda do sistema, a entrada de Mohammed Morsi no poder como presidente democraticamente eleito não surtiu o efeito esperado. Podem até sustentar que o golpe militar foi mais uma forma democrática de expressão dos verdadeiros anseios populares. Mas os problemas sociais e econômicos do Egito são complexos, intensificando as expectativas da população.

É muito provável, porém, que o Egito tenha cumprido sua revolução, e chegue agora a vez da Tunísia, onde se ouvem cada vez mais clamores exigindo que o partido islamista “An-Nahda” deixe o poder. Diante disso, os acontecimentos no Egito ao longo dos últimos meses podem se repetir na Tunísia. Não é por acaso que a demissão do chefe do Estado-Maior do Exército, general Rachid Ammar (o mesmo que em janeiro de 2011 depôs o ex-ditador da Tunísia, Ben Ali), aconteceu no momento em que houve mudança de poder no Qatar e começava a surgir no Egito o movimento anti-islamista.

Por outro lado, essa demissão e a intensificação das ações terroristas que se seguiu não devem inspirar qualquer marcha militar como a observada no Egito. Acredito que a situação na Tunísia pode ter vários desdobramentos.

Reconciliação. O general Ammar tinha divergências com o primeiro-ministro Ali Laarayedh. O aumento do terrorismo era previsível. Também era evidente a polarização da sociedade, bem como o descontentamento da maioria esmagadora das pessoas com as novas autoridades. Junto a isso, chegaram as notícias do acontecimentos no Egito. Contudo, o receio da guerra civil tem feito com que cada um dos jogadores seja mais responsável e moderado do que o seu eleitorado. Rashid Ghannuchi, líder do partido islamita, sugeriu até um referendo que conduza à reconciliação nacional.

Ditadura. Os líderes islâmicos podem muito bem optar pela ditadura. Para chegar a esse estágio, têm antes de estabelecer o seu controle sobre parte considerável dos negócios, sobretudo a importação de gêneros alimentares, e das forças da ordem e do Exército. Depois de tudo isso, se não for possível preservar o poder por meios pacíficos, haveria o pretexto da luta contra a crescente vaga terrorista. Assim, não seria possível esperar pelo fim do período de transição nem por eleições.

Revolta laica. Esse roteiro é o oposto ao anterior. O exemplo egípcio e o descontentamento da sociedade podem abalar as forças laicas, que vão procurar o apoio do Exército. Nesse contexto, Rachid Ammar pode se transformar no líder perfeito dos adversários do partido islâmico “An-Nahda”.

Desordem generalizada. As elites políticas ficarão incapacitadas de agir diante da pressão das ruas. A oposição terá de tentar derrubar o regime, o partido “An-Nahda” terá de se juntar à jihad, e o resultado será uma guerra civil.

Independentemente da composição final, nós, espetadores, devemos mentalizar que jogamos sempre com duas antíteses: autoritarismo versus democracia, e laicidade versus islamismo. E essas antíteses não nos deixam perceber o problema principal. O núcleo da questão é muito mais completo. Tanto a Tunísia como o Egito estão atolados em gravíssimos problemas sociais e económicos, e só eles poderão criar um sistema político minimamente estável.

 

Vassíli Kuznetsov é professor da Universidade Estatal Lomonossov de Moscou e membro do Instituto do Oriente da Academia das Ciências da Rússia.

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