Os dois extremos da igualdade

Ilustração: Niaz Karim

Ilustração: Niaz Karim

Longe do conceito de Guerra Fria, relações entre Rússia e EUA entram em uma fase marcada pelo menosprezo.

Tenho a impressão de que, se não fosse pelo caso Snowden, o líder americano Barack Obama teria encontrado outra desculpa para fugir de um encontro a sós com o presidente russo Vladímir Pútin durante a próxima cúpula do G20, em São Petersburgo. A aprovação da lei antigay pela Duma de Estado (câmara baixa do parlamento russo) poderia ser um excelente pretexto para Obama se recusar a participar da cúpula. Afinal, não é à toa que o tema da perseguição aos homossexuais na Rússia está em pauta na mídia ocidental.

A verdade é os dois presidentes não têm mais o que conversar, e a agenda bilateral chegou a um impasse. Não há nem haverá consenso sobre a Síria entre os dois países – por mais correta que seja, na minha opinião, a posição da Rússia. Além disso, os EUA nunca farão concessões à Rússia na questão do escudo antimíssil na Europa.

O principal desdobramento nesse aspecto acontecerá dentro de 10 a 15 anos, quando a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) obtiver, com a ajuda dos EUA, uma tecnologia completamente nova de luta antimíssil, que prejudicará significativamente a nossa capacidade nuclear. Talvez seja por isso que Obama teve a iniciativa de reduzir em 33% os arsenais nucleares dos dois países. É também compreensível por que o governo de Moscou mantém silêncio sobre o assunto até agora.

Enquanto isso, a Rússia não fará novas concessões aos EUA na questão iraniana, e os EUA arranjarão formas de lidar com a nova liderança iraniana depois de a economia do país ter sofrido o suficiente com as sanções internacionais. No Afeganistão, após uma grande redução da presença militar dos EUA em 2014, nossos serviços de trânsito de carga militar deixarão de ser necessários.

O mercado global de energia vive mudanças tão importantes que as negociações típicas do início do século sobre uma eventual cooperação russo-americana na área energética perderam sua relevância. E para completar o quadro, o intercâmbio comercial entre os dois países é dezenas de vezes inferior ao americano-chinês.

A situação é complicada ainda mais pelo fato de os EUA não encararem a Rússia de igual para igual por razões econômicas e ideológicas. As enormes diferenças ideológicas com a China só não impedem os EUA de construírem relações firmes com os orientais por causa dos milhares de dólares envolvidos no intercâmbio comercial e na interdependência econômica entre esses dois países.

Outro problema aparentemente menos importante, mas ainda assim impactante, é o péssimo elacionamento pessoal entre Pútin e Obama. O antecessor de Obama, George W. Bush, era mais próximo do líder russo, apesar de todas as divergências entre eles. Desse modo, enquanto Obama e Pútin permanecerem no poder, as relações entre os dois países não devem melhorar muito.

Por uma questão de justiça, não devemos dizer que há uma espécie de Guerra Fria entre nossos dois países atualmente. O mais provável é que, diante da política dos EUA em relação à Rússia, esteja começando uma nova fase prolongada cuja palavra-chave é “menosprezo”.

 

Publicado originalmente pela Gazeta.ru

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