Na balança do Oriente Médio

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

É um exercício interessante, e talvez frutífero, explorar os possíveis papéis que a Rússia pode desempenhar nas crises que tomam conta do Oriente Médio, algumas das quais muito longas e complexas, como as relações entre Irã e Israel. A questão nuclear iraniana e o conflito Israel-Palestina vêm testando os nervos dos líderes mundiais, e o envolvimento da Rússia nessas questões requer análise.

Apesar de as posições contrastantes da Rússia e Israel sobre os problemas na Síria ter aumentado as diferenças entre os dois países, nem tudo é ruim entre eles. Rússia e Israel compartilham valores históricos, como a diáspora russa, motivo pelo qual os russos são um segmento importante da população israelense e a língua russa é a terceira mais falada em Israel. Durante o massacre de judeus na época da Segunda Guerra Mundial, a URSS desempenhou um papel crucial na derrota dos nazistas.

Representando Israel durante a inauguração do Museu Judaico e Centro de Tolerância em Moscou em novembro passado, o presidente israelense Shimon Peres exaltou o papel da Rússia nesse contexto. “Eu acho que o mundo inteiro é profundamente grato ao povo russo por seus esforços sobre-humanos para erradicar a ameaça nazista”, disse Peres. O líder israelense também mostrou que conta com a liderança russa para conter a atual instabilidade no Oriente Médio e levar paz a regiões conturbadas do mundo. “Em seus ombros [Pútin] e sobre os ombros de Obama, pesa uma grande responsabilidade. Onde houver conflitos, compartilhamos a responsabilidade pela humanidade”, acrescentou o presidente.

"Pode ser possível elaborar um acordo segundo o qual Israel irá respeitar o direito da Palestina a soberania e integridade, e vice-versa, bem como do Irã reconhecer Israel como um Estado soberano no Oriente Médio e moderar seu programa de armas nucleares"

As palavras de Peres não devem ser tomadas superficialmente, e as interações entre os dois países continuam caminhando em uma direção frutífera. Em maio passado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu visitou Moscou para discutir sobre a Síria, com o principal objetivo de travar o envio de um sistema de mísseis S-300. Israel teme que esse moderno sistema de armas possa cair nas mãos do Hezbollah, com o qual mantém uma longa rivalidade. Isso ameaçaria a sua segurança e integridade. Sob a lei internacional, a Rússia pode fornecer armas, incluindo o sistema S-300, para a Síria. Os relatórios atuais sugerem, contudo, que a Rússia ainda não enviou o sistema de armas completo, cuja operação requer um treinamento sofisticado.

A questão iraniana é um pouco mais complicada. Rússia e China têm insistido em uma resolução pacífica da questão por meios políticos, enquanto Israel e seus aliados, incluindo os EUA, veem o Irã com mais desconfiança. Do outro lado, os líderes iranianos garantem que seus programas nucleares têm fins pacíficos. Pútin pode usar a sua próxima visita ao Irã e cultivar o relacionamento com o novo líder iraniano Hassan Rouhani, percebido como moderado, para desenvolver uma conjuntura internacional em que seria possível avançar nessa questão. Muitas outras potências expressaram esperança de que Rouhani estará mais predisposto a cooperar do que seu antecessor. Um entendimento internacional por iniciativa da Rússia, e apoiado por todas as grandes potências, incluindo os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, vai neutralizar grande parte das tensões no Oriente Médio e a rivalidade entre Irã e Israel.

Uma das principais questões polêmicas entre Irã e Israel é a Palestina. O Irã não reconhece Israel como uma entidade soberana e percebe a política de Israel em relação à Palestina como discriminatória. A Rússia, juntamente com outros membros do Quarteto (Nações Unidas, Estados Unidos e UE), pode trabalhar para aproximar os dois países.

Pode ser possível elaborar um acordo segundo o qual Israel irá respeitar o direito da Palestina a soberania e integridade, e vice-versa, bem como do Irã reconhecer Israel como um Estado soberano no Oriente Médio e moderar seu programa de armas nucleares. O Quarteto expressou recentemente a esperança de retomada do diálogo entre Israel e Palestina. Embora a Palestina tenha demonstrado pessimismo sobre o papel do grupo, a Rússia pode usar sua relação com os líderes palestinos para acalmar os ânimos.

"Pútin pode usar a sua próxima visita ao Irã e cultivar o relacionamento com o novo líder iraniano Hassan Rouhani, percebido como moderado, para desenvolver uma conjuntura internacional em que seria possível avançar nessa questão"

A falta de visão no Oriente Médio pode ser perigosa; além disso, soluções pensando no futuro seriam benéficas não só para Israel, Palestina e Irã, mas para toda a região. A tão comentada Primavera Árabe e sua propalada meta de instaurar democracia não funcionou tanto, como provam os recentes acontecimentos na Tunísia, Líbia e Egito. Na ordem global pós-Guerra Fria, que testemunhou um aumento significativo dos conflitos internos, é prudente que as grandes potências se unam para enfrentar os confrontos e evitar a escalada da violência para além de suas fronteiras.

As tentativas de expulsar a Rússia do cenário do Oriente Médio, utilizando a Síria como exemplo, também não funcionaram. Esses esforços podem apenas comprometer ainda mais as perspectivas de paz. O representante da Rússia na ONU, Vitáli Tchúrkin, chamou a recente reunião do Conselho da Oposição Síria com os membros do Conselho de Segurança da ONU de “útil” e depositou esperança na conferência de paz proposta para debater a questão. Segundo ele, “ainda há uma boa chance, porque a alternativa seria tão terrível, que é definitivamente melhor continuar tentando”. Sob a liderança atual,  a Rússia assume um papel dinâmico com a intenção de reunir os rivais à mesa de diálogo e levar paz à região.

 

Debidatta Aurobinda Mahapatra é um comentarista indiano. Suas áreas de interesse incluem conflitos, terrorismo, paz e aspectos estratégicos da política eurasiática.

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