Por uma Rússia sem meias palavras

Ilustração: Aliona Répkina

Ilustração: Aliona Répkina

Mídia ocidental continuará sustentando senso comum sobre a política russa até que as autoridades locais se engajem em um amplo programa voltado à imagem do país.

As autoridades russas nunca dedicaram atenção suficiente para a imagem do país na Europa, de modo que a percepção europeia e as notícias sobre a vida sociopolítica da Rússia são geralmente retratados por padrões enraizados. Se por um lado isso permite simplificar o fornecimento de informações, por outro, limita a visão do dos leitores europeus. Em termos de conteúdo, três pontos resumem o conjunto de ideias difundidas sobre a Rússia.

Em primeiro lugar, há, na mídia europeia, um certo consenso de que o presidente russo Vladimir Putin é um ditador à frente de um Estado controlador. Além disso, qualquer movimento de oposição por definição é democrático e certamente trará somente benefícios à Rússia. Por fim, paira a noção de qualquer investigação contra um oposicionista é primeiramente uma perseguição pelas autoridades, e o objeto da perseguição é exemplo de santidade e pureza.

Como resultado, o público estrangeiro recebe uma informação incompleta, que, com frequência, não corresponde de modo algum à realidade. A oposição não sistêmica, por exemplo, é apresentada pelos meios de comunicação ocidentais como detentora de uma plataforma ideológica comum e uma alternativa real para o regime de Pútin,  Mas os estrangeiros que têm acesso a essas informações nem suspeitam de que o movimento da oposição não possui um programa apoiado pela maioria de seus integrantes e, devido à heterogeneidade do grupo, a própria existência de tal objetivo seria impossível.

Outro tema geralmente levantado pela mídia é a política das autoridades russas na Tchetchênia, apresentada como uma coleção de crimes de guerra e infindável violência em resposta à exigência da população local oprimida que clama pela saída da Tchetchênia da Federação Russa. Sequer é mencionado que a exigência de independência é apresentada por guerrilheiros, e não por cidadãos civis.

Para ilustrar essa distorção da imagem, basta pegar o exemplo de um documentário sobre as prisões russas recentemente exibido pelo canal de TV russo LCP. No filme é feito um paralelo entre as condições de manutenção dos detentos na Rússia de hoje e nos tempos dos [campos de trabalho forçado] Gulag. Entre os testemunhos e comentários expostos, soam incansavelmente as lembranças do ano 1937, o que acaba por conduzir à identificação da forma de governo de Pútin com a de Stálin.

Esse tipo de apresentação apoia-se em duas regras básicas do jornalismo atual: simplificação e, às vezes, vulgarização dos dados, bem como a predominância de informações nacionais sobre as internacionais. Pela primeira regra, os chavões permitem à mídia simplificar a compreensão da informação pelo público. No caso da segunda, a apresentação das informações estrangeiras se mostra, muitas vezes, unidimensional. É por isso que Pútin e as autoridades russas acabam representando o mal absoluto.

Mas não só a imagem de Pútin sofre com essa situação – a da Rússia também, o que leva a consequências políticas muito significativas. Durante as visitas oficiais dos chefes dos países europeus ou de funcionários do alto escalão russo à Europa, a agenda obrigatoriamente inclui discussões sobre os direitos humanos, a situação na Tchetchênia, os movimentos de protesto e a situação dos presos políticos, pois a posição oficial de Moscou é muitas vezes desconhecida pelo público estrangeiro. A consequência disso é a limitação da cooperação  política, econômica e comercial com a Rússia, pois qualquer parceria com um “regime ditatorial” tem um impacto negativo sobre a imagem dos líderes europeus, e portanto, reduz o seu eleitorado.

Diante dessa situação, o mais eficaz para o Kremlin seria elaborar uma estratégia de comunicação consistente e, assim, criar uma imagem internacional favorável do chefe de Estado e do país como um todo. Essa estratégia não deve, de forma alguma, ser embalada por uma propaganda com elogiosas odes. Nas condições atuais, usar um métodos desses iria trazer prejuízos ainda maiores e, na melhor das hipóteses, seria severamente criticado pela mídia europeia. Pelo contrário, é imprescindível levar até o público europeu a mais completa informação e esclarecer a posição do governo russo em relação às questões-chave da política interna e externa. A conclusão será tirada por eles.

Até que isso seja colocado em prático, os dirigentes russos podem continuar a ignorar o fato de que a imagem da Rússia no exterior está se deteriorando. Mas nesse caso será necessário aceitar que as visitas do presidente russo aos países europeus se realizem de forma quase que secreta e que, no caso da divulgação de notícias sobre algum movimento de protesto, a palavra seja dada exclusivamente à oposição não sistêmica.

 

Tom Genole é cientista político e professor do  Instituto de Ciências Políticas de Paris e Katerina Rijakova é consultora em comunicações

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