"Por um mundo mais justo"

Ilustração: Niyaz Karimov

Ilustração: Niyaz Karimov

Obama se apropria de discurso proferido por Kennedy há 50 anos para reforçar a importância dos tratados de não proliferação nuclear.

Durante discurso no último dia 19, o presidente dos EUA Barack Obama, que estava em visita a Berlim, não pode ignorar o fato de que há exatamente 50 anos naquela mesma cidade outro presidente americano, John Kennedy, fez o seu famoso discurso "Ich bin ein Berliner". Obama mencionou um trecho do discurso de Kennedy, no qual ele previa o aparecimento de um “mundo de paz e justiça”, onde a liberdade prevaleceria e desapareceriam as linhas de cisão da Guerra Fria.

Inclusive, de acordo com Obama, a não proliferação de armas nucleares deve fazer parte desse “mundo justo”, bem como a redução do papel das armas nucleares na doutrina nuclear dos EUA, o impedimento do surgimento das armas nucleares no Irã, o desarmamento nuclear da Coreia do Norte e a imediata ratificação pelos EUA do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT).

Em maio de 2009, um apelo semelhante para o desarmamento nuclear foi feito pelo atual presidente americano, em Praga. O mérito principal daquele discurso de Obama foi a retomada das negociações sobre o desarmamento nuclear, que teve como resultado  o estabelecimento, em 2010, de um novo Tratado de Redução e Limitação de Armas Ofensivas Estratégicas. No entanto, muitas outras tesesdeObama, anunciadas em Praga e relacionadas ao desarmamento nuclear, não foram concretizadas.

Os Estados Unidos até agora não ratificaram o CTBT, o que impede que esse tratado entre em vigor. As negociações sobre um acordo de proibição da produção de material físsil, sobre o qual Obama aconteceu em 2009, mas nem foram iniciadas. Desde então, a Coreia do Norte realizou mais dois testes nucleares e as suspeitas em relação ao programa nuclear iraniano só se intensificaram. E o próprio novo Tratado sobre as Armas Ofensivas Estratégicas, apesar de seus méritos, mostrou que, nas próximas décadas, nem a Rússia nem os Estados Unidos estão prontos para reduzir o seu armamento estratégico abaixo dos níveis esperados.

No mesmo dia em que Obama discursou em Berlim, os dirigentes russos declararam que as propostas de Obama são impraticáveis no momento. “Não podemos permitir uma quebra do equilíbrio de dissuasão estratégica, que seja reduzida a eficácia de nossa força nuclear", disse o presidente russo Vladimir Putin em uma reunião do Serviço Federal de Contratos de Defesa. Paralelamente, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguêi Riabkov, disse que a Rússia não pode “ficar negociando em nível bilateral com os EUA a redução e a limitação de armas nucleares”, e que “torna-se cada vez mais urgente adotar um processo de desarmamento de um carácter multilateral”.

O caráter multilateral de quaisquer futuras negociações sobre o desarmamento nuclear, não é a única condição para a Rússia continuar a reduzir seu arsenal nuclear. Depois de 2009, os lideres russos já fizeram várias declarações a respeito dessas condições. Em primeiro lugar, a Rússia e os EUA devem cumprir as suas obrigações em relação ao novo Tratado de Redução e Limitação de Armas Ofensivas Estratégicas, segundo o qual o período de reduções termina somente em 2018.  Em segundo lugar, quaisquer reduções de NSNW, sobre a necessidade das quais Obama falou em Berlim, serão possíveis somente após a retirada das NSNW americanas do território europeu. Em terceiro lugar, quaisquer futuras reduções de armas nucleares devem ser efetuadas no contexto das medidas para impedir a implantação de armas no espaço sideral, da limitação do desenvolvimento de armamento estratégico não nuclear e da limitação do desenvolvimento de um sistema global de defesa antimíssil dos EUA.

Ao falar sobre o desarmamento em Berlim, Obama não poderia desconhecer essas condições. Então, qual era o propósito das suas iniciativas? Antes de tudo, os passos práticos no campo do controle dos armamentos nucleares e a retórica do desarmamento continuam sendo o seu cavalo de batalha na política externa. Além disso, Obama se posicionou em Berlim como o idealizador e o construtor de um “mundo justo”, cujo surgimento foi previsto ainda por Kennedy. E, um "mundo de paz e justiça", de acordo com Obama, “significa perseguir a segurança de um mundo livre de armas nucleares, e não importa, quão distante pode estar esse sonho”.

Reconhecendo, ainda em Praga, que a meta de um mundo livre de armas nucleares não poderia ser alcançada rapidamente e, provavelmente, não seria alcançada durante a sua própria vida, Obama, como um verdadeiro idealista, provavelmente espera que daqui a 50 anos outro presidente americano irá relembrar o discurso do atual presidente dos EUA, já posicionado no limiar de um mundo livre de armas nucleares.

No entanto, ao apresentar quaisquer iniciativas nesse domínio tão complexo como o desarmamento, é necessário se manter como “um idealista sem ilusões” como, certa vez, Kennedy chamou a si próprio. A julgar pelas declarações feitas pela liderança da Rússia em resposta às propostas de Obama, o  “mundo de paz e justiça” e “um mundo livre de armas nucleares” são ideais que não têm nada em comum com os verdadeiros interesses e possibilidades dos seus habitantes.


Aleksandr Kolbin é coordenador do programa “A Rússia e a Não Proliferação Nuclear” e pesquisador do Centro PIR

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