O que esperar do encontro entre Pútin e Obama na cúpula do G8?

Ilustração: Niyaz Karimov

Ilustração: Niyaz Karimov

Será o terceiro encontro entre os presidentes e a primeira vez em seis anos que Pútin participa da reunião.

A reunião de cúpula do G8 (Reino Unido, Estados Unidos, Rússia, Canadá, França, Alemanha, Itália e Japão), que ocorre entre segunda e terça-feira em Lough Erne, na Irlanda do Norte, marcará o terceiro encontro entre os presidentes da Rússia e dos EUA.

A primeira vez que Barack Obama e Vladímir Pútin se encontraram foi no verão de 2009, quando o presidente dos Estados Unidos viajou para Moscou para se encontrar com o então primeiro-ministro russo. A segunda foi no verão do ano passado, quando Pútin voltou ao cargo de presidente e participou da cúpula dos G20, na cidade mexicana de Los Cabos. 

O primeiro encontro se transformou em um monólogo de Pútin. Quando Obama perguntou sobre as relações bilaterais, seu interlocutor respondeu com um discurso de quarenta minutos sobre a política de Washington e, em particular, sobre os resultados da administração Bush.

"Entre o final do ano passado e início deste ano, Moscou e Washington entraram numa forte disputa por uma série de questões que não têm relação direta com o cenário político atual (Lei Magnístki, adoção de crianças russas etc)"

Obama ouviu atentamente, prometendo levar as palavras de Pútin em conta e no outono iniciou o processo de reinicialização das relações russo-americanas: uma estratégia de troca diplomática que resultaria na restauração das relações paralisadas desde o segundo semestre de 2000.

O segundo encontro ocorreu em um ambiente mais tenso. Pútin acabara de voltar ao Kremlin, substituindo Dmítri Medvedev, que tinha boas relações com Obama.

Todos os analistas políticos sublinharam a falta de expressão nos rostos dos presidentes, mas concordaram que o documento assinado durante o encontro foi um exemplo de diplomacia: as partes conseguiram ignorar todas as questões controversas e se concentrar apenas nos assuntos que unem os dois países.

O encontro na Irlanda do Norte ocorrerá em ambiente ainda mais desfavorável. Entre o final do ano passado e início deste ano, Moscou e Washington entraram numa forte disputa por uma série de questões que não têm relação direta com o cenário político atual (Lei Magnístki, adoção de crianças russas etc).

Trajetórias diferentes

Os analistas políticos adoram explicar a “química” dos encontros. Costumam dizer que ela é capaz de deslocar qualquer questão controversa.

Obama chegou à política profissional através do trabalho social, é conhecido pelo seu carisma, pela capacidade de atrair pessoas e por seu poder de persuasão.

Pútin, por sua vez, é o discípulo de uma organização hermética, onde a popularidade e a abertura política são qualidades negativas. Além disso, Pútin sempre trabalhou em estruturas com bases hierárquicas.

Obama foi eleito porque os americanos precisavam de mudanças no seus país. Pútin, por sua vez, prometeu estabilizar a situação na Rússia.

O que os críticos de Obama chamam de falta de princípios e fraqueza, na realidade é sua convicção de que na sociedade contemporânea, os métodos antigos podem levar a um resultado contrário.

Pútin também acredita que é proibido brincar com o mundo contemporâneo. Ele entende melhor do que a maioria dos políticos ocidentais que é perigoso tomar decisões categóricas sem levar em conta todas as possíveis consequências.

"Obama foi eleito porque os americanos precisavam de mudanças no seus país. Pútin, por sua vez, prometeu estabilizar a situação na Rússia"

Além disso, o presidente russo exagera o prestígio nacional russo –ele considera que a Rússia foi humilhada na década de 1990 e que por isso é preciso defender a imagem do país.

A situação de Obama é um pouco diferente. Do ponto seu ponto de vista, os Estados Unidos são tão poderosos que podem ceder alguns passos e ser mais flexíveis.

Neste encontro, a “química” entre os dois presidentes não surgirá. O mais importante é que ambos estão convencidos que no mundo atual é preciso evitar decisões categóricas. Os dois estão dispostos a negociar, cada um com sua própria perspetiva de negociação.

 

Fiódor Lukianov é analista do Conselho para Política Externa e Defesa em Moscou.

 

 Publicado originalmente pela revista “Ogoniok”

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