O mundo imaginário da União Soviética

Ilustração: Iolkin

Ilustração: Iolkin

Como a URSS ficou na memória daqueles que viveram naquele contexto e no ideário dos seus descendentes.

Certa vez, pedi a meus alunos da Faculdade de Jornalismo da Universidade Internacional de Moscou (MUM, na sigla em russo) para escreverem sobre pontos positivos da União Soviética. Não me interessava o que eles pensavam sobre a URSS, mas queria saber como esse período ficou na memória daqueles que lhes contaram sobre ele. Recebi sete textos bastante irônicos. Os títulos eram algo como “Não-liberdade, igualdade, maldade” ou “O mundo imaginário da União Soviética”.

Então, o que é que os jovens atuais gostariam de importar do passado soviético? Entre as respostas os destaques foram para educação e serviços de saúde gratuitos, estabilidade e confiança no futuro, solidariedade, baixa taxa de criminalidade, segurança social e desenvolvimento de artes.

Também foram mencionados o desenvolvimento dos esportes, Forças Armadas, potencial tecnológico, o amor à pátria e até mesmo o “sabor especial do chiclete”. Em suma, um mundo imaginário.

Sinceramente, a prática esportiva na União Soviética era mais obrigatória do que massificada, os alunos escolares fugiam das aulas de educação física (como agora),os vestiários de escola não tinham ducha e o país não tinha centros de ginástico e as piscinas só estavam disponível àqueles que tinha amigos na diretoria da instituição.

 “Qualquer pessoa podia deixar tranquilamente a chave de seu apartamento debaixo do capacho”, escreveu uma aluna. E o que é que eu deveria ter dito a ela: que havíamos sofrido dois furtos em nossa casa, que minha mãe fora ferida com faca por causa de chapéu de pele de raposa-do-ártico e que meu pai fora morto por causa de jeans americanos?

Mas eu não disse nada, porque, de repente, me peguei pensando que também tinha do que ter saudades: os descontos para os estudantes nas passagens em vagões melhores, e o pão preto fofo e quente custando apenas 18 centavos.

"Na União Soviética, o conhecimento era sempre um motivo de orgulho"

Existe também do que sentir falta. Em primeiro lugar, a poesia: o desprezado Assadov, o adorado Samoilov, o autopublicado Brodski e o externamente publicado Lossev. “Os Cadernos de Voronej”, de Ossip Mandelstam, e “Em trens partindo cedo”, de Boris Pasternak, eram sempre emprestados clandestinamente por uma única noite para serem copiados. Um livro de poesia de Anna Akhmatova era vendido por um preço impensável de seis dólares na rede de lojas Berezka, criada para os estrangeiros e fechada para os soviéticos.

A segunda coisa de que tenho saudade é a festa do intelecto e o respeito pelo conhecimento. Na União Soviética, o conhecimento era sempre um motivo de orgulho. Adquiri-los era, por vezes, um verdadeiro feito. Por exemplo, a Biblioteca Científica da Universidade Lomonossov de Moscou só estava disponível aos universitários a partir do 4º ano. Para solicitar o  empréstimo de livros de Freud ou Nietzsche, era necessário apresentar uma recomendação de seu orientador científico.

Ler os livros era obrigação de uma pessoa culta. Agora, as pessoas se livraram desse dever e trocaram a leitura pelo shopping. Mas será que havia outras opções? Como observou o hebraísta Semen Iakerson, “enquanto estávamos lendo um livro na mesma hora em que nossa avó estava fazendo bolos na cozinha, um garoto americano passeava no rancho de seus pais em um pônei que ganhou de presente em seu aniversário”.

"Verificou-se que, na nova sociedade, um intelectual não pode mais ser antissoviético e deve construir seu próprio sistema de relações com o mundo exterior. É isso que o distingue de um indivíduo não intelectual"

Mas não é só isso. Atualmente, você pode baixar em um leitor eletrônico toda a obra de Brodski e Slutski em dois minutos. Serguêi Gandlevski tem, no mínimo, três volumes. A editora de Ivan Limbakh publicou em um único volume toda a obra de Lev Lossev. Tudo o que estava guardado a sete chaves, da obra de Foucault à de Adorno, da obra de Djilas à de a Avtorhanov, está agora disponível, mas não há festa do intelecto.

Os intelectuais se contam pelos dedos. Aí está o paradoxo: há poesia, mas não há quem leia a poesia; há uma leitura intelectual, mas não há intelectuais. Tenho apenas uma explicação  para isso.  Na União Soviética, para responder à pergunta “quem sou eu?”, bastava ver se você era soviético ou antissoviético.  No entanto, esse sistema de identificação desapareceu com a União Soviética.

Verificou-se que, na nova sociedade, um intelectual não pode mais ser antissoviético e deve construir seu próprio sistema de relações com o mundo exterior. É isso que o distingue de um indivíduo não intelectual.  Relativamente falando, seu oposicionismo não lhe concede mais o direito de estar sempre certo. “O espírito gregário é sempre o refúgio da falta de dons; pouco importa que se trate aí de fidelidade a Saloviov, a Kant ou a Marx. Para buscar a verdade, é preciso ser só e romper com todos os que não a amam bastante”, escreveu  Pasternak em "O Dr. Jivago" (embora não suspeitasse que, em uma época de mudança de paradigmas, o conceito de verdade também pudesse estar desatualizado).

A internet, os e-books, a possibilidade de copiar instantaneamente qualquer informação e o desaparecimento das distâncias na troca de informações não fizeram surgir comunidades estáveis. Pelo contrário, surgiu um tipo de relações que se estabelecem e desaparecem de forma rápida por um motivo especial.

Entendo por que as pessoas que viveram na União Soviéticas choram por aquilo que existia nos tempos soviéticos: autorrealização, estabilidade, educação e até mesmo a prática esportiva. Na verdade, choram por si mesmas, por não terem conseguido receber formação, tornar sua vida estável e se realizar sozinhas.

 

Dmítri Gubin é observador político, jornalista, apresentador televisivo e columnista russo. 

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