A imagem à frente do poder

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Contrariando as investidas políticas e militares do passado, nova ordem mundial pressupõe maior influência internacional por meio da promoção de valores e ideias.

É de conhecimento geral que os Estados soberanos estão lentamente, porém de forma constante, perdendo a sua capacidade de administrar individualmente os principais desenvolvimentos em seus próprios territórios. A economia mundial está se tornando cada vez mais globalizada, interconectada e ramificada.

O sistema de distribuição das informações também deixou de respeitar as fronteiras nacionais. Um número recorde de pessoas vivem e trabalham fora do seu país de origem, embora não sejam os emigrantes típicos de algumas décadas atrás. Aquilo que durante séculos era atributo de um limitado grupo de pessoas e uma atividade extremamente confidencial torna-se paulatinamente assunto público.

Essa tendência influencia, enfim, a política internacional e a diplomacia. Com a redução do papel do Estado tradicional e a erosão da soberania, a diplomacia clássica entre países diferentes está começando a ser coisa do passado. Por um lado, os documentos diplomáticos e o conteúdo das conversas confidenciais são revelados com maior frequência; por outro, a sociedade civil globalizada está começando a ultrapassar ativamente as fronteiras nacionais e intervir na política internacional.

Os interesses dos Estados soberanos não só tornam-se mais interligados, como também incertos e de difícil formulação. O conflito militar em defesa de seus interesses pode se transformar em uma guerra contra si mesmo. A dinâmica do mundo moderno exige reações rápidas e a revisão regular das prioridades.

Nessas condições, cresce o papel dos fatores não tradicionais da política externa, entre eles o “poder brando”, termo cunhado no início dos anos 1990 por Joseph Nye, professor de Harvard. Em outras palavras, trata-se do aumento da influência internacional por meio de recursos não políticos ou militares de modo a promover valores, prioridades, ideias e opiniões.

É claro que ninguém aboliu os métodos militares, por exemplo. Mas hoje já se pode dizer que a nova ordem mundial, iniciada em meio à realidade do mundo pós-guerra, consistirá na oposição dos Estados e blocos através do “poder brando”.

Por isso, é extremamente importante para a Rússia desenvolver esse conceito, bem como aprimorar as tecnologias e os métodos para a sua aplicação, a estratégia de desenvolvimento, as prioridades e os objetivos. Do mesmo modo, é preciso equacionar os problemas financeiros e organizacionais por meio de apoio político e intelectual, e garantir a ajuda da sociedade civil e dos amigos da Rússia em outros países.

Cabe lembrar, contudo, que as autoridades russas simplesmente ignoraram essa questão durante toda a existência do Estado moderno. Além disso, o país vive à sombra de vários estereótipos e clichês soviéticos. Por fim, os inimigos geopolíticos e ideológicos de Moscou estiveram empenhados em produzir uma “anti-imagem” da Rússia – seja por simples antipatia, conflito de interesses políticas ou concorrência comercial.

O resultado hoje é um país quase ausente do confronto global entre os “poderes suaves”, no cenário internacional. E isso não só diminui as suas oportunidades no mundo, mas impossibilita a construção de uma imagem adequada e atraente. Em razão disso, as perdas econômicas e políticas da Rússia só vão aumentar.

Felizmente, Moscou terá oportunidades exclusivas de influenciar a agenda global ao longo dos próximos anos. O país atualmente preside o G20, em 2014 estará no comando do G8 e, finalmente, sediará o encontro entre os países do Brics em 2015. Somando isso aos Jogos Olímpicos de Inverno 2014 e à Copa do Mundo de Futebol de 2018, fica evidente o papel da Rússia como um crescente exportador de notícias em nível global.

O país vai naturalmente atrair a atenção da opinião pública internacional e seria imprudente não aproveitar essa oportunidade para reforçar a sua posição no mundo. Mas isso requer um amplo programa do governo, o qual a Rússia simplesmente não possui no momento. 

 

Nikolai Zlobin é analista político, historiador e publicista russo, autor dos livros e artigos sobre relações russo-americanas publicados em The New York TimesLos Angeles TimesInternational Herald Tribune,Chicago Tribune.

 

Publicado originalmente pelo Rossiyskaya Gazeta

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