Por que a Síria precisa da defesa russa?

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Se por um lado Moscou teme contagiar regiões vizinhas com o conflito, por outro corre o risco de terminar como “amiga dos condenados”.

Com os preparativos para a conferência internacional sobre a Síria em andamento, o tema das armas russas no país não sai da pauta da imprensa ocidental. As manchetes anunciam a chegada de mísseis russos Iakhont ou a entrega de mísseis antimísseis S-300. Moscou não entra em debate nem desmente as notícias veiculadas, mas apenas alega sua obrigação de cumprir os contratos anteriores.

É natural que as acusações de cinismo e moral dupla lançados contra a Rússia no Ocidente sejam nesse caso bastante modestas, enquanto o mundo árabe usa expressões mais duras e contundentes. O que está acontecendo no cenário político sírio que virou a principal fonte das notícias mundiais?

Ao que tudo indica, todos os principais atores externos entendem que a próxima conferência será um momento de virada em direção a um compromisso entre as partes beligerantes e ao fim do impasse em que a Síria se encontra há muito tempo. Se nenhuma aproximação acontecer, o risco de uma escalada do conflito pode se tornar uma realidade.

O insucesso das negociações levará as partes a crer que uma solução para o problema só pode ser encontrada no campo de batalha. Os adeptos de uma política de comedimento, entre os quais o governo Obama, ficarão sob forte pressão dos lobistas que desejam começar a fornecer armas à oposição síria. “Até quando ficaremos de braços cruzados observando o sangue correr como um rio por todo o país”, dizem eles. A Rússia, por sua vez, continuará ajudando o governo de Damasco a manter o equilíbrio de poderes. Uma nova rodada de tensão será inevitável. Nesse caso, o conflito tem todas as chances de se transformar em um confronto indireto entre a Rússia e os EUA. Muitos acreditam que isso já aconteceu, mas, na verdade, não é assim.

Os atuais passos da Rússia visam, na opinião de Moscou, aumentar as chances de sucesso do processo de paz. Caso contrário, o caos só vai aumentar, pois os parceiros do governo sírio não permitirão que a oposição tenha uma vantagem decisiva e farão o possível para impedir uma  intervenção externa.

“Até quando ficaremos de braços cruzados observando o sangue correr como um rio por todo o país?”

O fracasso das negociações levará as partes beligerantes a pensar que o problema só pode ser solucionado militarmente. Estamos assistindo a um jogo duro e bastante arriscado. Fornecer armas sofisticadas a uma das partes do conflito é um gesto pouco decoroso. No entanto, a Rússia fornece conscientemente armas de defesa ao governo sírio para impedir uma intervenção externa de grande envergadura. Moscou declarou repetidas vezes que não iria permitir que uma intervenção militar externa semelhante à realizada na Líbia acontecesse. Cabe notar que, no caso sírio, as autoridades russas demonstram intransigência e coerência inéditas e, portanto, surpreendentes para seus parceiros ocidentais. Nos últimos dois anos, o governo de Moscou tem sido duramente criticado e instigado a moderar sua posição, mas sem resultado. A posição intransigente da Rússia tem hoje efeito muito maior do que há alguns meses, devido, em parte, ao fato de o país ter conseguido demonstrar que o problema sírio não pode ser resolvido sem ele.

A segunda razão é uma visão cada vez mais pessimista do futuro da Síria após Bashar al-Assad, a qual se torna cada vez mais popular entre os seguidores estrangeiros da oposição síria. A perspectiva da divisão do país em enclaves étnicos e religiosos parece hoje mais realista do que nunca. Na prática, isso significa a propagação do conflito aos países vizinhos, como Turquia, Jordânia e Líbano. No Iraque, a situação também deixa a desejar.

Estamos assistindo a um jogo duro e bastante arriscado. Fornecer armas sofisticadas a uma das partes do conflito é um gesto pouco decoroso. 

No entanto, ao conseguir o reconhecimento de sua condição de ator insubstituível no cenário sírio, a Rússia não demonstra, por enquanto, grandes conquistas práticas. Moscou se apresentou desde o início como força conservadora e tentou impedir mudanças na Síria, temendo que a instabilidade gerada pela revolução tivesse efeito de ressonância, atingisse a Rússia e provocasse a intensificação das forças extremistas no Cáucaso. Essas preocupações são legítimas e fundamentadas, só que os resultados nessa vertente são tristes.

A intransigência de Moscou terá razões de ser se o problema sírio acabar sendo resolvido politicamente. Se o processo de resolução política entrar em colapso, a Rússia poderá se afastar do assunto, mas terá seus esforços de mais de dois anos fracassados e sua imagem de “amiga dos condenados” ainda mais reforçada.

Seja qual for o desfecho da guerra, ele não devolverá a estabilidade à Síria. Independentemente do ditador síria deixar o poder ou não, a Síria em sua versão anterior não existe mais. Do mesmo modo, em nível internacional, seria interessante tirar lições para o futuro. Mas é pouco provável que isso aconteça, já que na política moderna isso não costuma fazer parte do pacote.

 

Fiódor Lukianov é analista do Conselho para Política Externa e Defesa em Moscou.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta

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