Uma chance de restaurar o Império Otomano

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Atentado terrorista que ocorreu no último dia 11 na Turquia se tornou pretexto para o envio de tropas à Síria em prol de objetivos expansionistas.

A cidade turca de Reyhanli está localizada perto da fronteira com a Síria e a tragédia que ocorreu está diretamente relacionada a este país. Disso eu não tenho dúvidas.

As autoridades turcas, incluindo o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, culparam imediatamente o presidente sírio, Bashar al-Assad, pelo ocorrido. No dia seguinte ao atentado, o chefe do governo turco chegou a declarar que o governo sírio está tentando a arrastar a Turquia ao “pântano sírio”, durante uma coletiva de imprensa em Istambul. Mesmo assim, a participação de Damasco na organização da tragédia que ocorreu em Reyhanli, na minha opinião, é pouco provável.

O futuro do regime síria já não é promissor e ninguém quer provocar a intervenção turca no país, assinando, assim, a sua própria sentença de morte. Os rebeldes sírios, por outro lado, estão muito interessados não só na ajuda da Turquia, mas também na intervenção direta de um dos exércitos dos países-membros da Otan.

No dia 6 de maio, Ancara deu início a uma série exercícios militares que durou 10 dias, na província de Adana, perto da fronteira com a Síria. De acordo com o Estado-Maior da Turquia, seu objetivo é o desenvolvimento de medidas de mobilização, preparação e coordenação das tropas. Sem dúvida, esses exercícios apontam para uma operação de invasão da Síria.

O acordo assinado recentemente entre as autoridades turcas e os separatistas curdos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que prevê a retirada das forças curdas da Turquia, abriu o caminho para a realização de exercícios militares no território turco.

O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, declarou que o país responderá a qualquer ação hostil. O ministro publicou, inclusive, o artigo “A Grande Turquia” em um dos maiores e mais respeitados jornais do país em que falou sobre o futuro da expansão econômica do país Ancara no Mediterrâneo.

Um outro jornal turco, o “Hürriyet”, divulgou recentemente o mapa da “Nova Turquia”, que inclui a parte sudeste da Bulgária, nordeste da Grécia, as ilhas gregas no mar Egeu, Chipre, a república autônoma georgiana de Adjaraa, a república autônoma azerbaijana de Nakhchiban, o norte de Iraque e, o que é ainda mais interessante, quase a metade da Síria.

É preciso entender que os jornais publicaram somente os planos que correspondem à posição oficial do Partido da Justiça e Desenvolvimento, principal partido islâmico na Turquia. Porém, o governo do país participa cada vez mais ativamente na promoção de um movimento conhecido como “neo-otomanismo”, que pretende restaurar o Império Otomano, desintegrado após a derrota na Primeira Guerra Mundial em 1918.

Ultimamente, a Turquia se desviou do rumo pacífico e está testando a viabilidade de possíveis anexações, incluindo a Síria.

Tudo isso significa que os atentados na Turquia se tornaram o motivo necessário para o envio de tropas à Síria. No entanto, é provável que o governo sírio vai esperar os resultados da Conferência Internacional sobre a Crise na Síria. Cabe esperar o desfecho desse encontro, que acontecerá no final deste mês e já tem presença confirmada do Secretário de Estado dos EUA, do presidente russo e do primeiro-ministro britânico.

 

Stanislav Khatuntsev é doutor em História e autor de várias trabalhos científicos nas áreas de história, filosofia e geopolítica.


Texto publicado originalmente pelo Izvéstia

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