Magnítski divide poder americano

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Enquanto Congresso tenta extrair “dividendos políticos” do tema, Casa Branca teme as consequências negativas para as relações Rússia-EUA. Ainda assim, Obama não se arrisca a tomar medidas decididas para resolver o problema por razões políticas internas.

O Departamento de Estado dos EUA reduziu para 18 nomes a relação das autoridades russas proibidas de entrar em território norte-americano com a aparente intenção de amortecer, por menor que seja, o impacto negativo sobre as relações com Moscou produzido pela lei Magnítski. A lista elaborada pelo congressista James McGovern, que se apressou em dizer que o trabalho só está começando, continha cerca de 300 nomes.

Não há dúvida de que o trabalho, ou melhor, a briga política entre a administração Obama e o Congresso que envolveu, entre outras coisas, a morte trágica de um advogado russo, vai perdurar, pois atinge não só as relações internacionais, mas também os mais diversos aspectos da política interna dos EUA.

Há também outro motivo para a briga continuar. A lei Magnítski, aprovada no    final do ano passado, se tornou parte do arsenal político norte-americano. Portanto, é pouco provável que o Congresso abandone, em um futuro próximo, um instrumento tão importante que pode também ser aplicado em outras situações, não vinculadas necessariamente ao caso do advogado russo.

Paralelamente, o governo Obama nunca se mostrou entusiasmado com os planos do Congresso de conferir dimensão internacional ao caso Magnístki. Dentro do limite de suas competências, a Casa Branca e o Departamento de Estado tentaram despersuadir os congressistas, desejando minimizar o prejuízo causado pela lei às relações dos EUA com a Rússia.

Isso não se deve ao fato de Obama simpatizar com o Kremlin, mas porque seu governo enfrenta diversas problemas relacionados, em sua maioria, a conflitos regionais (Irã, Afeganistão, Síria, Coreia do Norte) e que só podem ser solucionados com a participação de Moscou.

No entanto, o Congresso não é obrigado a levar em conta essas nuances. Cada congressista conduz sua própria política externa de acordo com suas metas eleitorais, porque vive em regime de campanha eleitoral permanente, uma vez que o grupo é renovado a cada dois anos. Os congressistas norte-americanos não têm, portanto, tempo a gastar com questões supostamente periféricas como, por exemplo, a política externa. Só podem se permitir o interesse pelos assuntos internacionais quando surge uma situação provocada pela atuação de lobistas e que atinge diretamente os interesses de seus eleitores ou quando surge a possibilidade de se apresentar como defensores implacáveis dos valores humanos.

O caso Magnítski despertou interesse dos congressistas norte-americanos por várias razões. O tema entrou na ordem do dia sob pressão do empregador do advogado morto, Bill Browder, que conseguiu chamar a atenção da opinião pública internacional para o assunto.

A aprovação da lei Magnístki foi catalisada pela necessidade de anular a emenda Jackson-Vanik, que se tornou contrária aos interesses dos empresários norte-americanos. Como o Congresso não pode simplesmente anular uma sanção em relação à Rússia, mesmo que a medida tenha perdido atualidade, surgiu a ideia de inventar uma nova sanção para substitui-la.

A lógica do confronto ideológico entre o governo Obama e os republicanos obriga os últimos a atacar as iniciativas mais bem sucedidas da Casa Branca, entre as quais a de “reiniciar” as relações com a Rússia.

Segundo uma observação perspicaz de um comentarista norte-americano, a tragédia envolvendo Magnítski também chamou a atenção dos legisladores norte-americanos, porque a vítima era um advogado, isto é, uma pessoa da mesma categoria social da maioria dos congressistas, e eles não poderiam permanecer indiferentes ao caso. Esse aspecto contribuiu para a radicalização de suas atitudes. 

É possível tirar daí algumas conclusões para o futuro. A situação conflitual provocada pela lei Magnítski irá se prolongar por muito tempo. O Congresso norte-americano tentará resgatar os dividendos políticos desse tema, enquanto a Casa Branca continuará buscando amortecer o impacto negativo produzido pelo conflito sobre o relacionamento bilateral. De qualquer modo, é pouco provável que o Executivo americano se arrisque a tomar medidas decisivas para acabar com esse fator irritante nas relações russo-norte-americanas por razões políticas internas.


Fiódor Lukianov é analista do Conselho para Política Externa e Defesa em Moscou.

 

Publicado originalmente pela RIA Nóvosti

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