Iraque, do confronto a hoje

Em 20 de março de 2003, os EUA iniciaram uma guerra contra o Iraque. Dez anos depois, o balanço do conflito parece negativo para os norte-americanos. E para a comunidade internacional como um todo? O analista político Fiódor Lukianov fala sobre os desdobramentos de uma guerra que deixou milhares de mortos e má fama para os Estados Unidos, mas também o esclarecimento dos papéis de organizações internacionais como a Otan.

Há dez anos, os EUA lançaram uma campanha militar de grande envergadura contra o Iraque sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Claramente concebida para demonstrar a capacidade dos EUA de influenciar e controlar os processos globais, a invasão teve um resultado inverso ao esperado. 

Milhares de norte-americanos foram mortos nos anos posteriores à invasão, durante a suposta “constituição da nação iraquiana”. No lado iraquiano, o número de vítimas mortais os ultrapassou 100 mil apenas entre os civis, de acordo com ONGs. Apesar da consequente queda de Saddam Hussein, o conflito também trouxe consequências para os EUA.

Os gastos com a campanha iraquiana, estimada em mais de 800 bilhões de dólares, agravaram ainda mais os problemas econômicos do país. Além disso, os EUA tiveram a credibilidade prejudicada e as autoridades norte-americanas se viram envolvidas em uma série de controvérsias sobre a presença de armas nucleares no Iraque.

Quanto à não proliferação de armas de destruição em massa, o resultado esperado também não foi alcançado. Os resultados da chamada democratização do Oriente Médio, promovida à força no Iraque e que serviram de impulso para a Primavera Árabe, saíram pela culatra, já que os novos regimes apoiados pela maioria da população adotam atitudes antiocidentais.

Todas essas questões são universalmente aceitas, inclusive por aqueles que há 10 anos saudaram a libertação do Iraque do “mais cruel ditador do mundo”.  Mas é importante olhar para a guerra no Iraque sob outro ponto de vista e, assim, enxergar também quais benefícios a campanha iraquiana dos EUA trouxe à comunidade internacional.

Em primeiro lugar, o conflito no Iraque desferiu um duro golpe à arrogância dos EUA que, após a os atentados de 11 de setembro, começaram a assumir uma posição neoimperialista. O atual comedimento do presidente norte-americano Barack Obama pode, inclusive, ser visto como um reflexo da análise da experiência da campanha  iraquiana.

Além do mais, o fracasso dos EUA na guerra do Iraque fez com que o Conselho de Segurança da ONU voltasse a ser um elemento importante da política internacional, pois logo ficou claro que a falta de legitimidade de tais iniciativas pode torná-las contraprodutivas. A substituição da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) por uma “coalizão de voluntários”, como fez o então secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, evidenciou que o vazio jurídico paralisa qualquer ação.

Embora seja possível derrubar um regime sem aprovação formal, isso não garante a estabilidade na região afetada. Sabe-se que o Conselho de Segurança e as demais instituições da ONU Unidas não são perfeitas, mas a comunidade internacional também entende que não existem outros mecanismos mais práticos e consistentes. À parte de algumas falhas, foram muitas as oportunidades, ao longo dos últimos 10 anos, de ver como o procedimento adotado pelas Nações Unidas ajudou a quebrar o impasse em conflitos.

Ainda que a guerra do Iraque tenha evidenciado as diferenças políticas entre os dois lados do Atlântica, a unidade entre eles não sofreu grande impacto com a recusa dos principais países europeus em participar da empreitada norte-americana no Iraque. Uma década depois, as antigas contradições, como a sugestão de alguns políticos dos EUA de boicotar todas as importações da França, passaram ao esquecimento.

Ficou claro também que a Otan não pode exercer a função de força internacional, afinal, a maioria dos seus membros não está pronta para isso ou só seriam capazes de participar simbolicamente. Apesar de a busca de uma nova missão para a Aliança continuar, nos últimos anos um novo conceito vem adquirindo contornos cada vez mais claros: a Otan passa a ser vista como uma organização militar regional destinada a resolver problemas nas imediações de sua área de responsabilidade, ou seja, na zona euroatlântica.

Para a Rússia, essa notícia não é parece conveniente, pois a área de responsabilidade da Otan se estende ao sul e ao leste de suas fronteiras. Mas é também estimulante ver que a capacidade militar da Europa está diminuindo e os EUA estão mais focados na Ásia do que no Velho Mundo. A guerra do Iraque mostrou às autoridades russas que a política ocidental não é bem calculada e criteriosa nem mesmo racional. Desde o início, Moscou declarou que a aventura iraquiana não traria resultados positivos e teve razão.

Paralelamente, a Rússia se dedicou ao aumento de suas próprias capacidades para estar pronta para quaisquer desdobramentos. Desde que os líderes mundiais passaram a realizar ações que não condizem às leis internacionais, a Rússia começou a acreditar que qualquer coisa pode acontecer e, portanto, deve estar pronta para agir militarmente. Essa não é exatamente uma estratégia, mas uma tática que pode se mostrar eficaz por algum período.

Fiódor Lukianov é analista do Conselho para Política Externa e Defesa em Moscou.


Publicado originalmente pelaRossiyskaya Gazeta

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.