Sem vontade de assumir um caminho difícil

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Enquanto as figuras ocidentais forçam a criação de um governo interino na Síria, a Rússia continua pessimista sobre as chances de melhorar a situação no país. Moscou não vê nenhum Estado disposto a garantir o novo governo com o uso de força. Além disso, os russos acreditam que a oposição síria é muito fragmentada para chegar à mesa de negociações como uma voz única.

Enquanto as figuras ocidentais forçam a criação de um governo interino na Síria, a Rússia continua pessimista sobre as chances de melhorar a situação no país. Moscou não vê nenhum Estado disposto a garantir o novo governo com o uso de força. Além disso, os russos acreditam que a oposição síria é muito fragmentada para chegar à mesa de negociações como uma voz única.

À medida que a guerra na Síria avança e tira mais vidas, o Ocidente insiste que a única chance de evitar conflitos religiosos e caos é aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU exigindo a criação de um governo interino, que será garantido por forças externas. A Rússia, que tem seu próprio interesse financeiro nessa história, parece então ser um obstáculo, já que se uniu ao Irã e China para proteger seu aliado e cliente, Bashar al Assad.

Mas a realidade não é tão simples assim . Por um lado, nenhum dos atores internacionais ou regionais estão dispostos a aceitar a responsabilidade pela situação na Síria após a queda prevista do atual regime – em outras palavras, a se tornar a tal “força externa”.

Os Estados do Golfo não têm arsenal militar. A Turquia, que possui o segundo maior exército da Otan, não está interessada em assumir o fardo de se envolver em uma crise que provavelmente levará anos para resolver e pode desencadear novos confrontos violentos com os curdos. Os EUA e a Europa declararam quase abertamente o desejo de não serem arrastados para um “novo Iraque ou Afeganistão”. O líder da Otan, Anders Fogh Rasmussen, acredita que a intervenção militar externa não tem poder de solucionar o conflito, e poderia torná-lo ainda pior.

“Tenho plena convicção de que qualquer intervenção militar externa terá repercussões imprevisíveis, porque a sociedade síria é muito complicada – em termos políticos, étnicos e religiosos – e o contexto regional é muito, muito complexo”, disse Rasmussen.

O Ocidente deve também manter em mente que os próprios sírios não irão provavelmente acolher tropas estrangeiras em seu território. Nem mesmo a oposição está pedindo uma intervenção. Diante das circunstâncias, para evitar mais violência, os capacetes azuis ou uma força conjunta árabe com amplos poderes são preferíveis. O enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi, mencionou um possível envio de tropas de paz da ONU. As partes ainda têm de chegar a um acordo sobre sua implantação, embora a imposição da paz nos moldes da antiga Iugoslávia seja improvável.

O Acordo de Taif, em 1989, que pôs fim à guerra civil no Líbano, mostrou que um acordo de paz é possível, mesmo depois de um confronto que durava uma década. Esse acordo, porém, foi alcançado uma vez que os atores externos que apoiavam os principais grupos libaneses também desejavam paz e estavam prontos a fazer algumas concessões.

Brahimi sugere o uso dos acordos alcançados em junho do ano passado em Genebra como um ponto de partida para chegar a um consenso na Síria. Moscou compartilha essa posição. Além disso, a Rússia está disposta a apoiar uma resolução da ONU com base nesses acordos, se a votação no Conselho de Segurança for precedida por um ajuste entre Assad e a oposição.

Enquanto isso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo admitiu não ver nenhuma perspectiva de melhora na situação síria. De acordo com o vice-chanceler russo, Guennádi Gatilov, uma das razões para isso é que os países ocidentais e seus aliados não trabalham de maneira eficaz com a oposição.

Como disse o ministro das Relações Exteriores, Serguêi Lavrov, “não há nenhum grupo de negociação em nome da oposição, e essa coalizão inclui muitos grupos diferentes para ser capaz de chegar a um consenso”.

No entanto, a Rússia não está desistindo de um diálogo com os adversários de Assad. O país está tentando descobrir se a iniciativa vale a pena e se essas pessoas podem manter suas promessas.

Enquanto isso, a Rússia está fornecendo assistência humanitária aos refugiados do conflito sírio.

Durante seu encontro com o presidente libanês, Michel Suleiman, o chefe de Estado russo Vladímir Pútin prometeu ajuda aos refugiados que vivem no Líbano.

Na ausência de um acordo entre Assad e a oposição, a Rússia também teme que uma resolução da ONU poderia se tornar a desculpa perfeita para uma campanha militar no estilo da Líbia, derrubando o poder existente sem criar oportunidades para estabelecer um novo governo no país.

 

Nikolai Surkov é professor assistente no Mgimo (sigla russa para Instituto Estatal para Relações Internacionais de Moscou).

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.