Oriente Médio define seu próprio caminho

Ilustração: Javier Aguilar

Ilustração: Javier Aguilar

Analista russo acredita que países ocidentais devem adotar política reativa em vez de tentar assumir o controle da situação.

Dois anos após o início da Primavera Árabe, tem-se a sensação de que tudo começa de novo. O assassinato do líder da oposição provocou distúrbios e crise política na Tunísia, enquanto o segundo aniversário da Revolução de Tahrir provocou uma nova rodada de tensão e escalada de violência no Egito.

Entretanto, seja como for, a atual situação é muito diferente daquela observada no início de 2011. As forças seculares e liberais insatisfeitas com os resultados das transformações ocorridas vão às ruas protestar na esperança de limitar os poderes de novos governadores. Os islamistas empregam a força para reprimir os protestos e colocar as coisas em seu devido lugar.

Paralelamente, a implantação de um regime repressor semelhante aos derrubados sob uma bandeira diferente já é impossível, porque a população árabe assimilou de bom grado o espírito de democracia. O autoritarismo está rapidamente saindo de moda, inclusive nos países onde parecia impossível haver um outro regime.

Não vale a pena esperar que um pluralismo à Ocidente se implante nesses países. Os resultados das eleições mostraram claramente que os partidos seculares são apoiados pela minoria absoluta. Por essa razão, os islamistas irão apelar para a vontade da  maioria da população para reprimir a resistência da oposição.

O Ocidente está em uma situação crítica por não poder explicar quem (e por que) apoia no Oriente Médio. O argumento sobre a necessidade de estar do “lado certo da história” invocado desde os primeiros dias da Primavera Árabe se torna cada vez menos convincente, porque essa visão parece cada vez menos atraente para a opinião pública ocidental.

A posição do Ocidente em relação aos conflitos armados é ainda menos clara. A situação em que os países ocidentais estão na Líbia e na Síria, isto é, do lado daqueles contra quem estão lutando no Mali, gera cada vez mais perguntas, sobretudo nos EUA. Prova disso é a diminuição do entusiasmo em relação aos rebeldes sírios e uma guinada em direção à posição russa.

Por mais importante que seja a Síria, o principal país para a futura relação de forças na região é o Egito. Por isso, é completamente lógico que a recente vista ao Cairo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, tenha despertado grande atenção na comunidade internacional. Os líderes iranianos não visitavam a capital egípcia desde a Revolução Islâmica, em 1979.

Ao chegar ao poder, o que coincidiu com a eclosão de uma guerra civil na Síria, Mohamed Morsi deixou claro que não iria se juntar à posição irreconciliável anti-iraniana seguida pelas monarquias do Golfo, lideradas pela Arábia Saudita.

A passagem de navios de guerra iranianos pelo Canal de Suez, a viagem de Moris a Teerã para participar da cúpula dos Não-Alinhados e a proposta do Cairo de convocar um quarteto regional para a Síria com a participação do Irã mostram que o Egito tem a intenção de recuperar seu papel de ator regional independente perdido após o acordo de Camp David com Israel, em 1979.

Ainda assim, o Egito enfrenta grandes problemas econômicos (estimulados pelas revoluções) e seus patrocinadores financeiros, tanto velhos como os EUA quanto novos como o Catar e Arábia Saudita, são contra, cada um por suas próprias razões, a aproximação com o governo de Teerã.

Nesse contexto, a próxima eleição presidencial no Irã neste ano pode ser o acontecimento mais relevante para a política regional, já que a saída de Mahmoud Ahmadinejad deve abrir novas possibilidades às negociações políticas e diplomáticas. Ajustando sua linha, o governo de Teerã poderá influenciar muitos processos na região.

A transformação do Oriente Médio só está começando. Portanto, a questão de seus princípios ideológicos e geopolíticos está em aberto. Entretanto, a sensação é a de que a dinâmica interna, ou seja, os interesses, especificidade e a vontade dos países da região e de suas populações irão ter um papel muito mais importante do que a influência de forças externas, por mais poderosas que elas sejam.

A Primavera Árabe obrigou todos os países, inclusive os EUA, a seguir atrás de seus desdobramentos e a abdicar de sua política ativa, formadora do cenário, a favor de uma política reativa que segue atrás dos acontecimentos. A Primavera  Árabe também obriga a acompanhar as mudanças e inventar novos modelos de conduta. Uma corrida sem regras no Oriente Médio só está começando. 

 

Fiódor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs Originalmente publicado pela agência de notícias RIA Nóvosti

Versão reduzida do artigo publicado originalmente pela Gazeta.ru
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