Um outro lado da questão do conflito sírio

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

A Rússia está sendo acusada não só de estar sendo hostil em relação ao Islã e aos muçulmanos, mas também de estar exportando para os países árabes seus "valores imorais".

A posição oficial da Rússia sobre a situação na Síria está sendo condenada por muitos árabes.

No mundo árabe, os protestos contra o regime sírio são vistos como levantamento popular. Já a Rússia não encara os acontecimentos como a luta do povo sírio por seus direitos e acredita que as ações armadas contra o governo são uma conseqüência da política do Ocidente, que persegue seus próprios objetivos no país.

É ocasião para lembrar que, em nenhum momento nas últimas décadas, o Ocidente se preocupou com os anseios do povo árabe, mantendo relações com os governos que lhe eram fiéis e que eram por ele substituídos ao primeiro sinal de se tornarem "material consumido".

Em resposta à recusa de Moscou de seguir a esteira da política ocidental em relação à Síria, a blogosfera, a mídia e muitos recursos de internet árabes lançaram uma campanha  condenando a Rússia.

Seus impulsionadores e ativistas de redes sociais alertam para as próximas mudanças substanciais na Síria, acentuando o aumento das determinações islamistas extremistas alegadamente apoiadas pelo povo sírio.

A Rússia está sendo acusada não só de estar sendo hostil em relação ao Islã e aos muçulmanos, mas também de estar exportando para os países árabes seus "valores imorais".

"Moscou só é capaz de nos fornecer garotas de vida fácil", escrevem alguns veículos on-line árabes.

Esses slogans simples e cativantes têm sido regularmente proferidos por oposicionistas em numerosos programas de auditório na TV.

No entanto, é difícil concordar com a tese de que, nas últimas décadas, os países árabes não receberam da Rússia outra coisa além de uma multidão de loiras atraentes. Muitos dos países da região devem seu florescimento econômico à assistência técnica russa. Mas é impossível convencer uma pessoa que não quer saber a verdade.

Mesmo se admitirmos que essas acusações, na verdade absurdas, contra a Rússia são justas, seria lógico perguntar: o que, além de petróleo e gás, os países árabes têm exportado para o Ocidente?

Convenhamos, a primeira coisa que vem à cabeça é o fundamentalismo islâmico mais radical. O surto de terrorismo é nosso principal produto de exportação, que não deixa sequer de lado um correligionário nosso, um muçulmano com opiniões moderadas.

Agora vamos comparar a periculosidade dos dois "produtos de exportação".

Historicamente, no mundo árabe, a prostituição existiu sempre, obedecendo às leis da oferta e demanda e sendo um negócio feito por duas partes. Em muitos países árabes, a prostituição foi semi-oficalizada para ser usada pelos serviços de segurança para controlar cidadãos suspeitos.

Turistas estrangeiros também são, não raro, vítimas dos serviços de prostitutas árabes, que realizam reuniões íntimas sob o controle de áudio e vídeo dos serviços secretos em locais especialmente arrumados pelos mesmos.

Em certo sentido, a exportação da prostituição merece uma condenação menor do que a do terrorismo. Afinal, as prostitutas não se encobrem com textos sagrados nem obrigam ninguém a seguir um caminho reconhecido como justo de uma vez para sempre.

Já pregadores e imames emitem fatwas sobre a descrença e licenças para matar infiéis e, por vezes, fiéis.

Quem comete adultério peca contra si mesmo, enquanto quem mata uma criança inocente ou mutila uma mãe de família numerosa peca contra outros. Qual a utilidade da penitência se aqueles que morreram ou sofreram injustamente jamais voltarão? A penitência não lava o sangue.

É verdade que loiras do norte podem ser encontradas em muitos países árabes. Mas não devemos esquecer que nem toda a moça falando russo é de nacionalidade russa. A língua russa é falada por muitas pessoas originárias dos países das ex-repúblicas soviéticas.

Não foi a Rússia que inventou o comércio sexual do corpo. Há muitas mulheres árabes que, por mais triste que seja, se prostituem com êxito e competem em condições de igualdade com suas "colegas" de outros países.

Portanto, acusar gratuitamente Moscou de "exportação de valores imorais" para o mundo árabe é retirar a seu critério de um mosaico complexo de relações com a Rússia alguns seixos que não refletem o verdadeiro quadro das relações complexas e frutíferas do mundo árabe com esse grande país.

 

Alaa Omar é observador independente de alguns meios de comunicação árabes

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.