Vacina contra nacionalismo tem validade limitada

Ilustração: Natalia Mikhailenko

Ilustração: Natalia Mikhailenko

Como as desigualdades sociais e a insatisfação popular podem servir de catalisador para o radicalismo.

Há 70 anos, o mundo era apresentado a Adolf Hitler, o novo chanceler da Alemanha. Como uma das nações mais desenvolvidas e civilizadas da Europa mordeu a isca do populismo misantrópico e sucumbiu à ilusão de soluções simples para problemas complexos continua intrigando os pesquisadores. Embora a Europa tenha aprendido com o que aconteceu nos anos 30 do século passado, a vacina contra o nazismo parece ter validade limitada.

A ideologia nazista concretizou o conceito mais primitivo do nacionalismo e superioridade racial. Hoje em dia, apesar de todas as mudanças, o nacionalismo como forma de autoidentificação e estruturação do espaço político ainda está presente. Mais do que isso, à medida que as fronteiras vão desaparecendo em consequência da globalização, o desejo das pessoas de se agarrar a algo familiar e tradicional aumenta. A identidade nacional, que compreende uma determinada visão da história, cultura e religião, entre outras coisas, é para elas um respaldo natural.

A situação se agrava com a crescente desigualdade social. O problema das sociedades ocidentais modernas é a erosão e a diminuição da classe média vista sempre como baluarte do regime democrático. Parte dela está sendo transformada em uma camada cosmopolita, capaz de tirar proveito das vantagens proporcionadas pela economia global aberta. Outra porção, mais numerosa, é composta por pessoas que possuem menos oportunidades e enfrentam grande concorrência com a mão de obra barata do Sudeste Asiático ou programadores na Índia e Bielorrússia que terceirizam os serviços anteriormente prestados por eles.

Preocupada com sua posição social e seu futuro, essas pessoas estão perdendo sua base e tornando-se um núcleo de insatisfação. Elas pregam o protecionismo para defender os bens nacionais. Seu descontentamento pode ter alvos diferentes como, por exemplo, a burocracia de Bruxelas, as corporações multinacionais, os milionários estrangeiros que compram moradias no litoral ou até mesmo os imigrantes muçulmanos, cujo número vem crescendo.

O triunfo do nazismo se deveu sobretudo à Grande Depressão que atingiu o mundo em 1929, embora tenha fator econômico sido apenas um catalisador desse processo. A verdade é que Hitler soube aproveitar o sentimento de humilhação nacional sofrido pela sociedade alemã após a Primeira Guerra Mundial. Hoje em dia, a situação é diferente e uma guerra de grandes proporções entre os países mais desenvolvidos parece impossível. A consciência da injustiça, porém, é um fator de descontentamento também muito poderoso.

A atual geração dos europeus entende que vai viver pior do que seus pais e que seus filhos viverão pior ainda. O modelo de bem-estar social adotado na Europa desde os anos 50 está se esgotando. O perigo vem da sensação de regresso e da comparação desagradável entre o que se foi e o que ficou.

Essas tendências que dificilmente desaparecerão em um futuro próximo favorecem duas categorias de forças políticas: a extrema esquerda e a extrema direita. Enquanto os primeiros se revoltam contra os poderosos, os segundos têm sua mira nos imigrantes.

A Grécia, por exemplo, é reflexo de um modelo de desenvolvimento deprimente. Nas eleições de 2012, o maior acréscimo no número de votos foi registrado nos partidos de extrema esquerda e partidos nacionalistas e xenófobos. Embora apresentem sinais idênticos à Grécia, outros países do sul da Europa não registram um desespero tão grande. Ainda assim, a extrema polarização na ausência de uma alternativa real às políticas existentes faz lembrar a República de Weimar [período da história alemã entre o fim do Segundo Reich alemão, em 1918, até à ascensão de Hitler] nos últimos anos de sua existência.

Os governos de tecnocratas aplicam medidas draconianas aguardando horrorizados as próximas eleições em que os eleitores podem retaliar. A questão é saber se os principais partidos políticos se atreverão a se aliar às forças extremistas para usá-las em seu benefício. Pelo menos já sabemos aonde isso levou na Alemanha.

Hitler chegou ao poder democraticamente. Esse é um exemplo clássico de que a democracia é um instrumento, e não um meio de resolução de problemas nem panaceia para os males sociais. Uma  sociedade sem tradições ou dominada por fortes sentimentos e emoções não é capaz de preencher o invólucro democrático de uma nação. Essa lição aparentemente óbvia foi esquecida no final do século 20 quando, graças aos vencedores da Guerra Fria, a democratização virou uma espécie de religião secular com seus dogmas imutáveis.

 

Fiódor Lukianov é analista do Conselho para Política Externa e Defesa em Moscou.

 

Publicado originalmente pelo jornal Kommersant

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