‘Fantiki’, a embalagem da alma russa

Um bom exemplo de como a arte foi utilizada para criar embalagens é “Michka, o urso”. O nome em russo (“Michka kosolapi”) remete a uma canção de ninar bem popular, e a imagem é uma reprodução de “Manhã em uma floresta do pinheiros” (1889), de Ivan Chíchkin e Konstantin Savítski.

Um bom exemplo de como a arte foi utilizada para criar embalagens é “Michka, o urso”. O nome em russo (“Michka kosolapi”) remete a uma canção de ninar bem popular, e a imagem é uma reprodução de “Manhã em uma floresta do pinheiros” (1889), de Ivan Chíchkin e Konstantin Savítski.

Sydney Vicidomini
Além do produto em si, o que faz os doces e chocolates russos serem realmente especiais é sua embalagem. Chamadas de ‘fantiki’, são inspirados a obras de arte, literatura, história e arquitetura. Um olhar mais cuidadoso revela ainda o espírito de diferentes gerações.
Em 1851, o empresário alemão Theodore Ferdinand von Einem fundou uma das mais antigas fábricas de doces na Rússia, que levou seu nome: Einem. Depois da revolução de 1917, foi nacionalizada e renomeada como “Fábrica de Confeitaria No.1”. Em 1922, seu nome foi novamente alterado, para “Outubro Vermelho”, uma marca conhecida por ter intrigado gerações de crianças soviéticas com suas embalagens coloridas. // Este é o “Red Poppy”, que provavelmente leva o nome do ballet homônimo apresentado no Teatro Bolshoi em 1927. Foi o primeiro ballet soviético com um tema moderno.
As embalagens de doces no século 19 eram desenhadas pelos mais proeminentes artistas russos, como Vasnetsov e Vrúbel. Durante o primeiro período da era soviética, o design de embalagens se tornou um trabalho de vanguarda: Kandínski e Rodtchenko são apenas duas das mentes escondidas por trás das imagens que chegavam frequentemente despercebidas aos consumidores. // “Chapeuzinho Vermelho” é fruto do trabalho do artista e historiador Mikhail Gubônin.
Os chocolates e doces da “Outubro Vermelho” eram um tanto caros e difíceis de encontrar para a maioria das crianças soviéticas. É por isso que elas costumavam brincar com as embalagens: o jogo era basicamente como bater carta com o “fantik”, porém usando o polegar. // Nesta foto, você pode ver o galo do desenho animado de 1955 baseado na versão de Aleksêi Tolstói de um conto de fadas popular.
As embalagens da “Outubro Vermelho" acompanharam todos os momentos da história soviética: houve uma série dedicada a pilotos, aos Jogos Olímpicos ou à exploração do espaço. // “Stolitchnie” significa “os chocolates da capital”. Eles tinham recheio de vodca e imagens das Sete Irmãs, o grupo de arranha-céus projetados em estilo stalinista.
Após a queda da União Soviética, a “Outubro Vermelho” foi privatizada e, em 2002, juntou-se à holding “Confeitarias Unidas”, que reúne outras marcas russas, incluindo as populares Babaevski e Rot Front. Esta última imita o tema da capital em suas embalagens: “As luzes de Moscou” exibe o mesmo marco da arquitetura stalinista brilhando sob o céu estrelado.
Outro produto da Rot Front é o “Zamoskvoretchie”, que homenageia um dos bairros mais antigos de Moscou onde, historicamente, viviam os comerciantes.
Já “Belotchka”, o esquilo, é uma marca imortal e um produto da confeitaria Babaevski. Aliás, é muito comum na Rússia dar o nome de animais aos doces.
Outro exemplo clássico é “Korovka”, a vaquinha. Trata-se de um doce tipo toffee originalmente criado na Polônia e depois distribuído por toda a União Soviética e o mundo.
Às vezes, essas embalagens também têm um apelo bastante nostálgico, revelando, assim, que não só representam a beleza e o folclore nacional, mas também carregam em si uma estratégia comercial sutil. // Nesta, um cavalheiro se curva diante de uma senhora em um fundo branco e rosa. O que ele poderia estar dizendo a ela? “Quer ser minha?”