Crise ucraniana e a volta das tensões com a Otan

Apesar de criticar a Rússia, a Otan, no dizer do secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, não quer relançar a Guerra Fria Foto: serviço de imprensa

Apesar de criticar a Rússia, a Otan, no dizer do secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, não quer relançar a Guerra Fria Foto: serviço de imprensa

Para o corpo diplomático russo, os documentos do encontro dos ministros das Relações Exteriores dos países da Otan “estão impregnados de uma pesada carga de confrontação com o nosso país, originando tensão e novas linhas separadoras no continente europeu”.

Moscou reagiu com profundo desagrado às decisões saídas da reunião dos ministros das Relações Exteriores dos países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Na opinião de diplomatas russos, o bloco não está preparado para a parceria com a Rússia em pé de igualdade e se serve da crise ucraniana para reforçar seu potencial bélico.

Especialistas russos consideram que a Otan não deseja o retorno à Guerra Fria. Ao mesmo tempo, porém, não descortinam perspetivas para a normalização das relações nos próximos anos.

No último dia 2 de dezembro, os ministros do bloco analisaram o modo de darem mais eficácia às decisões da cúpula do País de Gales, a qual aprovou um Plano de Prontidão. No centro da discussão esteve o chamado Grupo de Prontidão Militar Avançada, no quadro das forças de reação rápida da Otan, que levará poucos dias a entrar em ação no caso de uma eventual ameaça desencadeada pela Rússia.

Especialistas russos fazem um apelo para que não se dê demasiada importância ao incremento das forças da organização no leste europeu.

“A Rússia não deve responder, seja de que modo for, às decisões dos ministros das Relações Estrangeiras dos países da Otan. Primeiro porque as ameaças feitas naquela reunião, como a do desenvolvimento de forças de reação rápida, são ilusórias; segundo, a Rússia atualmente tem capacidade de rechaçar tais ameaças que, por uma ou outra razão, possam passar de ilusórias a reais; terceiro, uma resposta da Rússia representaria o agravamento da situação, o que só prejudicaria Moscou”, opina Andrêi Suchentsov, parceiro executivo da agência analítica Vnéchniaia Polítika (Política Externa).

“O grupo de reação rápida não atuará fora dos países da Otan. Se trata de garantir a segurança dos países do leste do continente membros do bloco, como os Estados bálticos”, frisou Timofei Bordatchov, diretor do Centro de Pesquisas Europeias e Internacionais, junto da Escola Superior de Economia.

Suchentchov opina que os membros da Otan procuram colocar em prática uma escalada limitada do conflito.

“Por um lado, eles acham necessário responder às ações da Rússia em relação à Ucrânia; por outro, não querem originar um conflito global estratégico de longa duração”, explicou.

Além disso, os chefes das diplomacias dos países do órgão aprovaram uma declaração sobre o conflito na Ucrânia no qual exortam a Rússia a exercer sua influência sobre os independentistas, a retirar do território ucraniano suas tropas, cuja presença é negada por Moscou, a restabelecer a soberania da Ucrânia e a cumprir todas as cláusulas dos acordos de Minsk.

Apesar de criticar a Rússia, a Otan, no dizer do secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, não quer relançar a Guerra Fria, apostando em relações construtivas. Perguntado pelo Gazeta Russa se será possível o restabelecimento dos contatos com a Rússia, ele deu como exemplo o seu país, a Noruega, cujas relações políticas e comerciais com a URSS não foram afetadas, mesmo no auge da Guerra Fria.

Normalização das relações

Aleksandr Gruchkó, representante permanente da Rússia junto à Otan, comentou com certo ceticismo as perspetivas do reinício dos trabalhos do Conselho Rússia-Otan:

“Neste momento, não vejo necessidade da convocação do Conselho, já que a Otan continua fiel à posição que formulou no dia 1º de abril”.

Naquela altura, o bloco suspendeu todo o tipo de cooperação com a Rússia, seja civil ou militar, devido à posição desta em relação à Ucrânia e à anexação da Crimeia.

Por sua vez, Fiódor Lukianov, presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa, disse que, neste momento, praticamente não existem relações entre a Rússia e a Otan: “Há, de novo, retórica de confrontação, embora não haja meios para investir nessa confrontação. Eles não existem em quantidade suficiente. Da parte da Otan, isso já é evidente; da parte da Rússia, o será em breve, quando a crise econômica chegar à esfera da Defesa.”

Lukianov acrescentou que a Otan não está preparada mentalmente para enfrentar a Rússia, ainda que “alimente a ambição de tirar partido da situação para injetar sangue novo no bloco envelhecido”. Mas, ainda segundo ele, a Otan tenta “dar prova de firmeza, mas sem provocar” a Rússia.

Segundo Gruchkó, é possível relançar a cooperação, caso a Otan reveja as decisões que tomou em relação à Rússia.

“Então, veremos em que áreas essa cooperação pode dar frutos. Isso tem a ver, sobretudo, com a situação no Oriente Médio e no Norte da África, com a luta contra o terrorismo, a disseminação das armas nucleares e o combate à pirataria marítima, enfim, com todas as áreas que abordávamos no quadro do Conselho Rússia-Otan.”

“A bola está do lado da Otan”, salientou Gruchkó. E acrescentou:

“Atualmente, as relações entre a Federação da Rússia e a Otan se aproximam do ponto de congelamento.”

“A Rússia vai responder à nova estratégia do Bloco Atlântico aumentando sua capacidade defensiva, o que já está se verificando, pelo que não valerá a pena aguardar qualquer reparação das relações nos próximos 3 a 5 anos”, lamentou Timofei Bordatchov.

Para Suchentsov, um dos problemas-chave entre a Rússia e a Otan é a ausência de compreensão mútua:

“Os chefes do bloco tentam pressionar Moscou porque estão convencidos de que a Rússia só entende a linguagem da força. Este é um erro muito perigoso. A Rússia sente essa pressão, mesmo quando despende esforços colossais para estabilizar a Ucrânia, e tira suas conclusões. Portanto, os dirigentes russos se negam a assumir compromissos e se comportam no quadro da lógica do confronto. Para pôr fim a este círculo vicioso, a Rússia e o bloco devem, em conjunto, fixar regras de coexistência.”

 

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