Descentralização da Ucrânia vira consenso entre especialistas russos e europeus

Solução mais pacífica para crise ucraniana, segundo observadores, está na federalização do país Foto: AP

Solução mais pacífica para crise ucraniana, segundo observadores, está na federalização do país Foto: AP

Divisão do poder e respeito a minorias são vistos como promessa para fim da crise. Porém, relatório produzido por diplomacia russa aponta para outras duas possibilidades: confrontação militar e manutenção do status quo.

Em reunião no Instituto Estudos Políticos de Paris nesta terça-feira (25), o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, declarou que nenhum acordo de paz na Ucrânia será possível “enquanto não for encontrado um modo de fazer da Ucrânia um país descentralizado ou federalista”. Segundo ele, a descentralização ajudará os ucranianos a determinar seu lugar na Europa e reabrir o diálogo com a Rússia.

No mesmo dia, a agência de notícias Rússia Hoje divulgou um relatório do Conselho para os Assuntos Internacionais da Rússia, intitulado “Rússia e Ucrânia: Corredor de Possibilidades”, no qual são abordados três cenários para o futuro ucraniano.

Para os autores do documento, Serguêi Markedonov e Aleksander Guschin, a solução mais pacífica para crise ucraniana também está na federalização do país. Já os outros cenários sugeridos, confrontação militar e “congelamento profundo”, “só adiariam a resolução da crise ucraniana”. 

Descentralização e compromissos

A concretização deste cenário pode ser efetiva caso a Rússia, a Ucrânia e a União Europeia solucionem o problema do gás de modo a satisfazer todas as partes. Isso iria, então, constituir a base para a discussão do estatuto da Ucrânia fora do bloco ocidental.

Na opinião dos autores do relatório, “Kiev só se recusará a entrar para a Otan se Moscou deixar de contrariar o vetor europeu da política ucraniana”.

O passo seguinte, pressupondo a descentralização e compromissos, deve ser a constituição do estatuto do Donbass. “Em troca da suspensão das sanções, a Rússia poderia reconhecer a consolidação territorial da Ucrânia, com a concessão de amplos poderes às regiões de Donetsk e Lugansk, com elementos de organização federativa”, lê-se no documento.

Confrontação militar

Qualquer ação desse gênero levará ao fracasso do “processo de paz de Minsk” a ao ressurgimento do confronto militar e político no sudeste ucraniano, com provável envolvimento direto da Rússia, dos EUA e da Otan.

No relatório, Markedonov ressalta que “o Ocidente não está pronto para entrar abertamente em conflito com Moscou, o que poderá desaguar no cenário ‘Krajina Sérvia de Krajina – 1995’, em que os militares croatas, com o apoio dos EUA, liquidaram as infraestruturas da não reconhecida República Sérvia de Krajina, restabelecendo assim a solidez territorial do país”.

Essa iniciativa também significaria “o fracasso de Moscou e o congelamento de todos os projetos do Kremlin que visam à integração, já que os aliados da Comunidade dos Estados Independentes verão a Rússia com descrédito”.

Outra variante possível da escalada do conflito ucraniano seria uma intervenção militar de Moscou, “nos termos do cenário caucasiano de 2008”, e o consequente reconhecimento das repúblicas de Donetsk e Lugansk.

Este cenário é considerado pelos especialistas Andrêi Kortunov e Fiódor Lukianov como o pior para todas as partes envolvidas no conflito, porque “põe em perigo não apenas a segurança da Ucrânia, como a da Europa e de todas nações do espaço pós-soviética”.

Manutenção do status quo

O cenário mais provável, segundo os autores do relatório “Rússia e Ucrânia: Corredor de Possibilidades”, será Kiev renunciar a conversações com representantes das repúblicas não reconhecidas e o “congelamento profundo” do estatuto das repúblicas, bem como a manutenção do statu quo das relações Rússia-Ucrânia e Rússia-Ocidente. Caso isso se concretize, é de se esperar um “novo conflito relacionado à questão do gás, em meados de 2015, entre Rússia, Ucrânia e UE, bem como a continuidade de sanções mútuas”. 

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