“Cúpula de Milão é mera propaganda”, critica observador

Cúpula Europa-Ásia, realizada em Milão, reuniu representantes de 50 países Foto: Reuters

Cúpula Europa-Ásia, realizada em Milão, reuniu representantes de 50 países Foto: Reuters

Na esteira do encontro entre os presidentes da Rússia, Vladímir Pútin, e da Ucrânia, Petrô Porochenko, em Milão, três analistas russos avaliam as perspectivas de resolução da crise ucraniana e de normalização das relações entre a Rússia e a UE.

Serguêi Markedonov, cientista político e professor do Departamento de Estudos Regionais Estrangeiros e de Política Externa da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanas

“Ainda não estão formadas as condições prévias para um avanço positivo nas relações entre a Rússia, o Ocidente e a Ucrânia, durante a cúpula em Milão. A crise ucraniana levantou uma questão séria – ela foi a conclusão do processo de tentativas da Rússia para se integrar ao mundo ocidental e declarar a sua visão independente dos processos globais. O Ocidente considera a situação na Ucrânia e as ambições da Rússia como o colapso da ordem mundial, e não apenas mais um truque de Moscou. Na situação que se formou é importante manter alguns limites e congelar a posição alcançada entre as partes em confronto.

Depois de Milão, muito vai depender da situação no Donbass. Se o status quo atingido no momento da assinatura dos acordos de Minsk se mantiver, nascerá em seguida uma dinâmica positiva nas relações entre a Rússia, o Ocidente e a Ucrânia. Ou seja, haverá uma certa conceptualização das repúblicas não reconhecidas de Donetsk e Lugansk. Por enquanto, as emoções falam mais forte.

Qualquer progresso nas relações terá sido resultado de uma reavaliação séria. Ou a Rússia reconhece que não tem pretensões de ser o centro do poder no espaço pós-soviético ou o Ocidente reconhece que as preocupações de Moscou sobre a vizinha Ucrânia são justificadas. Existe um terceiro compromisso a ser assumido: a organização de um encontro tipo Helsinque-2, onde as questões começariam a ser discutidas, e novas regras do jogo, elaboradas. Mas nós não vemos as partes preparadas para isso.”

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Dmítri Evstafev, cientista político e professor da Escola Superior de Economia

“Os europeus queriam usar a plataforma da cúpula de Milão para forçar a Rússia a prometer qualquer coisa sobre a Ucrânia. Mas Moscou repetiu, e repete, que nada depende dela. A Ucrânia só precisa comprovar a viabilidade de sua própria soberania: a realização de eleições, sobreviver à crise mantendo o controle dos sistemas sociais e econômicos e, o mais importante, apontar para onde deseja seguir: Ocidente ou Oriente.

Não devemos esperar progressos rápidos nas relações entre a Rússia e a Europa depois da cúpula de Milão. Os europeus orientam-se pelos americanos e esperam por seu posicionamento claro. Mas Washington está mudo e, por isso, os europeus estão prostrados no que se refere à crise na Ucrânia e às relações com a Rússia. O diálogo não existe. Mesmo que seja possível chegar a algum acordo, qual será o preço desse progresso perante as condições da instável soberania da Ucrânia ​​e das incertezas do posicionamento dos EUA sobre a crise no país? Só será possível conseguir algum progresso em maio de 2015, quando os Estados Unidos começarem a se preparar para o grande ciclo eleitoral. Nesse contexto, a Cúpula de Milão é mera propaganda.”

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Nadéjda Arbatova, chefe do Departamento de Estudos Políticos Europeus (DEPE) do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da Rússia

“Não houve progresso algum em Milão. Tudo o que podia se discutir era sobre a implementação faseada dos acordos de Minsk e, mais importante ainda, sobre o regime de cessar-fogo que não está sendo respeitado pelas partes do conflito ucraniano. Sem uma estrita observância do acordo de cessar-fogo por todas as partes não vale a pena esperar que algo irá mudar.

Depois do encontro, existem dois cenários possíveis para as futuras relações entre a Rússia, o Ocidente e a Ucrânia. A primeira, e mais provável, é a “variante da Transnístria”, isto é, o conflito fica congelado. Mas esse cenário não levará ao restabelecimento das relações da Rússia com a UE e a Ucrânia. O segundo, e mais favorável, seria uma solução completa para o conflito por meio da implementação dos acordos de Minsk e conversações complementares para fazer a regulação pós-crise entre Moscou-Bruxelas-Kiev.”

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