Negociações em Minsk podem levar à solução da crise na Ucrânia, dizem especialistas

Os acordos alcançados incluem também a criação de um estatuto especial para as regiões de Donetsk e Lugansk Foto: Reuters

Os acordos alcançados incluem também a criação de um estatuto especial para as regiões de Donetsk e Lugansk Foto: Reuters

Estudiosos acreditam que sucesso nas negociações somente será alcançado com afastamento de radicais de ambos os lados.

Na sexta-feira (5), representantes das autoridades ucranianas e das repúblicas autoproclamadas do sudeste do país assinaram um protocolo de cessar-fogo. Especialistas russos acreditam que a atual trégua pode levar a um progresso na solução da crise interna ucraniana através de posturas mais moderadas das partes e o trabalho em pontos de interesse comuns.

As partes em conflito se comprometeram a suspender as ações de combate e a garantir a entrega da ajuda humanitária à população das regiões afetadas. Também está prevista a troca de todos os prisioneiros de guerra, a retirada de grupos armados ilegais, de equipamento militar, de guerrilheiros e de mercenários do território da Ucrânia, a anistia aos combatentes e o início de um diálogo político abrangente com garantia de segurança pessoal para os participantes das futuras negociações. O monitoramento da situação na fronteira russo-ucraniana será realizado pelos representantes da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa).

Os acordos alcançados incluem também a criação de um estatuto especial para as regiões de Donetsk e Lugansk, que continuarão como partes integrantes da Ucrânia. Para isso, a Verkhovna Rada (Parlamento da Ucrânia) deve aprovar uma lei especial e a realização de eleições antecipadas para as autoridades locais nas repúblicas autoproclamadas. As autoridades ucranianas também se comprometeram a adotar um programa de reconstrução econômica na região de Donbass.

A Gazeta Russa perguntou a opinião de especialistas sobre os acordos feitos e os rumos da crise ucraniana. Confira as respostas abaixo.

Aleksêi Arbatov, diretor do Centro de Segurança Internacional do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais

A atual trégua difere da anterior pela existência da infeliz experiência da última tentativa de negociação. Agora, estão sendo tomadas medidas para o monitoramento da prevenção de ações de combate, que não existiam na vez passada, e foi estabelecida toda uma gama de ações destinadas a assegurar a confiabilidade da trégua e a sua observância pelas duas partes. Também foram lançadas as bases para um diálogo sobre o estatuto das duas repúblicas autoproclamadas na qualidade de partes integrantes da Ucrânia. Esse é um acordo mais sólido, no qual a Rússia e os representantes da República Popular de Donetsk, da República Polpular de Lugansk, de Kiev e da OSCE se apresentam como fiadores.

Paira no ar a sensação de que, dois meses após a tentativa anterior, tudo está caminhando no sentido de encerrar o derramamento de sangue: o exército ucraniano, o povo e o governo estão cansados da guerra, da mesma forma que Moscou e a Europa. Chegou o momento de dizer: “Já chega! Está na hora de sair dessa!".

Se Moscou seguir adiante pelo caminho da escalada do conflito será inevitavelmente conduzida ao confronto direto com a OTAN, apesar de todas as declarações de Obama, Putin e membros da aliança. Hoje, o principal objetivo político do Kremlin é evitar isso, pois novos aspectos de segurança, que nos dois últimos meses foram negligenciados até não poder mais, estão chamando a atenção com insistência cada vez maior. Em particular, os eventos no Iraque e no Oriente Médio, bem como as ameaças terroristas endereçadas aos integrantes do governo russo e do Cáucaso do Norte.

Evguêni Bujínski, vice-presidente sênior do Centro PIR (organização não governamental especializada em pesquisa, atividades educativas e de publicação na área da segurança internacional)e tenente-general na reserva

A principal questão é o futuro estatuto das regiões de Lugansk e Donetsk. Petrò Porochenko não fará concessões nem antes, nem depois das eleições da Verkhovna Rada. Ele começou falando da Ucrânia unificada e irá dar continuidade a essa política no futuro. Uma pequena indulgência em torno do estatuto das regiões orientais, no plano da economia, finanças e idioma, é bastante possível, mas não mais que isso.

De modo geral, é bem possível que sejam solucionadas as questões a partir das quais se desencadeou a crise no leste da Ucrânia.

Daqui a uma semana, outra reunião será realizada em Minsk e, obviamente, a questão do estatuto das regiões será levantada novamente. Porochenko foi obrigado a fazer manobras entre a União Europeia e os EUA, pois após ter sido divulgada por Angela Merkel a posição da UE, que considerou inviável uma solução militar para a crise ucraniana, o presidente da Ucrânia se manifestou a favor de uma solução pacífica para a crise. Os EUA assumem uma posição diferente, eles não fizeram pronunciamentos análogos ao que foi feito pela chanceler da Alemanha. Os norte-americanos apoiam uma solução política, mas não seriam contrários a uma completa vitória de Kiev. O Primeiro-Ministro da Ucrânia, Arsêni Iatseniuk, reflete justamente essa abordagem, afirmando que não haverá quaisquer negociações com os terroristas.

Não tenho certeza de que a trégua firmada conduzirá a um completo cessar-fogo.  Porochenko controla apenas as Forças Armadas do país e a Guarda Nacional. Os batalhões de Igor Kolomoiski (magnata e governador de Dnepropetrovsk que financia formações militares próprias e presta assistência a organizações ultranacionalistas e que tem interesse em exacerbar o confronto com a Rússia) e de Serguêi Taruta (magnata e governador da região de Donetsk) não são subordinados ao presidente, e a trégua lhes permitirá restabelecer os recursos desgastados e começar a atirar novamente.

Andrêi Kórtunov, diretor geral do Conselho Russo de Assuntos Internacionais

As últimas ofensivas das milícias no leste da Ucrânia mostraram que o objetivo das autoridades de Kiev de conseguir a vitória total até o final do verão tem poucas probabilidades de ser alcançado. Mas também é evidente que as capacidades militares da milícia são limitadas.

As negociações em Minsk mostraram que não existe um consenso entre as partes quanto à solução da crise. A posição ponderada de Petrô Porochenko suscita muitas críticas em Kiev, sobre as quais muitos políticos ucranianos estão construindo suas campanhas eleitorais para o Parlamento do país. Também no leste da Ucrânia nem todos apoiam a disposição para o compromisso. Existem radicais que acreditam que há necessidade de completa independência e distanciamento da Ucrânia. Assim, para alcançar o sucesso nas negociações é preciso afastar os radicais de ambos os lados.

Os próximos dias mostrarão se os acordos de Minsk irão conseguir passar no teste aplicado pelo tempo.

 

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