Ameaças diminuem, mas Moscou enfrenta novo formato de terrorismo

O maior perigo hoje vem do Oriente Médio, onde nas fileiras do Estado Islâmico estão combatendo elementos de origem russa Foto: ITAR-TASS

O maior perigo hoje vem do Oriente Médio, onde nas fileiras do Estado Islâmico estão combatendo elementos de origem russa Foto: ITAR-TASS

Para especialistas, maior perigo vem atualmente do Oriente Médio, onde atua o Estado Islâmico.

Já se passaram dez anos do dia marcado pelo ataque terrorista mais cruel na história contemporânea da Rússia, no qual foram feitos 1.100 reféns  em uma escola da cidade de Beslan, na Ossétia do Norte. Durante a operação especial de resgate, 334 reféns foram mortos, em sua maioria crianças. Hoje em dia, há pouca probabilidade de acontecer um ataque dessa envergadura no país. Não por que a ameaça terrorista na Rússia desapareceu: ela simplesmente se transformou, passando de evidência a uma vaga possibilidade.

As ameaças da parte dos terroristas da Tchetchênia, Daguestão e Inguchétia deixaram de ser encaradas pela sociedade como essenciais, de acordo com a opinião tanto da população como de especialistas. Segundo enquetes do Centro Panrusso de Pesquisa da Opinião Pública, o problema do terrorismo preocupa hoje 13% dos habitantes da Rússia, 2% menos do que no ano passado e 75% menos que em 2004, quando 88% dos pesquisados indicaram o terrorismo como o maior problema do país.

Nikolai Silaev, perito russo em problemas do Cáucaso, revelou a Gazeta Russa: «A atividade terrorista no Cáucaso do Norte diminuiu em 2014, por várias razões. Nos últimos anos, a pressão militar para com a clandestinidade terrorista aumentou, muitos elementos foram mortos ou detidos. Os serviços especiais russos atuaram de modo especialmente persistente no período que antecedeu os Jogos Olímpicos de Sôtchi. Foram criadas comissões especiais, que se mostraram muito úteis, para efetuar conversações com terroristas, com o fim de os convencer a abandonarem os bosques e voltarem à vida pacífica. Além disso, os mais agressivos foram combater na Síria ou no Iraque».

Segundo Aleksandr Bórtnikov, diretor do Serviço Federal de Segurança russo, durante o primeiro semestre do ano foram mortos 130 terroristas, entre eles 21 chefes, e foram detectados e neutralizados mais de 160 bases e esconderijos de armamentos pertencentes aos grupos terroristas.

Atitudes de autoridades de algumas das repúblicas que optaram pela integração à Rússia também estão contribuindo para a diminuição da tensão. É o caso de Ramzan Kadirov, presidente da Tchetchênia, que não perde a oportunidades de aderir às diretrizes políticas russas, participando ativamente na ajuda humanitária para Donbass, na libertação dos jornalistas russos aprisionados pelas autoridades de Kiev e prometendo destinar meios financeiros para o desenvolvimento econômico da Crimeia, entre outras coisas.

Geórgia

Apesar da estabilização gradual no Cáucaso do Norte, existem alguns fatores que podem voltar a agravar a situação na região, aumentando o perigo de ataques terroristas. Os representantes dos serviços secretos russos receiam que a Geórgia possa continuar a política dos tempos de Saakachvíli, de desestabilização do Cáucaso do Norte em resposta ao reconhecimento pela Rússia da independência da Abecásia e da Ossétia do Norte. Entretanto, alguns cientistas políticos russos consideram esse receio injutificado.

«É verdade que ainda existe a infraestrutura da chamada nova política de Mikhail Saakachvíli no Cáucaso do Norte. Não obstante, a fronteira do nosso lado está fechada e segura; além disso, Tbilissi não tem recursos nem intenção de desequilibrar o Cáucaso do Norte. Atualmente, as autoridades georgianas tomaram rumo à normalização do relacionamento com Moscou, estão colaborando com a Rússia no combate ao terrorismo e já ajudaram de certo modo na organização da segurança durante os Jogos Olímpicos de Sôtchi», diz Silaev.

Oriente Médio

O maior perigo hoje vem do Oriente Médio, onde nas fileiras do Estado Islâmico estão combatendo elementos de origem russa. Há quem se preocupe, em Moscou, que eles possam voltar e  usar a experiência adquirida para complicar a situação na Rússia, sobretudo no Cáucaso do Norte, no Tartaristão e na Crimeia.

Alguns cientistas políticos afirmam que a ameaça do terrorismo proveniente do Oriente Médio existe não tanto contra a Rússia diretamente, mas contra os interesses russos na Ásia Central. «Em meio aos adeptos estrangeiros da Jihad, os cidadãos russos não são muitos – entre 400 e 600 elementos. A Rússia possui serviços de contraespionagem fortes e recursos poderosos, por isso a potencial ameaça da parte dos mercenários que atuam no Iraque e na Síria não é tão grande como pode parecer. Entretanto, para os países da Ásia Central, onde as autoridades não conseguiram acabar com a clandestinidade islâmica, essa ameaça pode ser fatal», diz Leonid Issaev, especialista em mundo árabe. Todavia, a brusca islamização e desestabilização da Ásia Central pode aumentar o poder da comunidade muçulmana da Rússia, bem como atrair para o solo russo terroristas treinados nessa região, o que facilitaria o regime sem exigência de vistos existente entre as respectivas repúblicas e a Rússia.

Radicalização da situação na Ucrânia

O agravamento contínuo da situação na Ucrânia também representa uma ameaça séria. Iúri Tcháika, procurador-geral da Rússia, reconhece que «os processos políticos nacionalistas estão complicando sensivelmente a situação operacional em três unidades federais, onde há problemas provocados tanto pela ameaça terrorista, como pela circulação ilegal de armamentos e pelas migrações não controladas».

Na Ucrânia se manifesta a transferência do direito à violência do poder oficial para numerosos «exército privados» representados pelos batalhões de voluntários. Além disso, estão presentes alguns agrupamentos militarizados do gênero do Setor de Direita. Todas estas estruturas não governamentais «posicionam a Rússia como seu inimigo desde o final do ano passado, quase evocando a tomada dos territórios fronteiriços», frisa Aleksandr Brod, diretor do Bureau de Moscou para os Direitos Humanos.

Por isso, não se deve excluir a possibilidade de que, mesmo se o presidente ucraniano, Petro Porochenko, assinar um acordo de paz com os combatentes da Milícia Popular de Donbass, os agrupamentos não oficiais pró-governamentais não obedeçam, continuando a guerra. O domínio da língua russa e o regime sem vistos os ajudará a atravessar a fronteira com a Rússia. Além disso, atualmente os extremistas têm acesso a meios de destruição extremamente perigosos: veículos de lançamento de mísseis e materiais nucleares, entre os quais combustível nuclear usado, foram incluídos pelo gabinete de ministros da Ucrânia na lista das cargas especiais sob a proteção das tropas não regulares da Guarda Nacional.

Mesmo assim, as ameaças provenientes do Oriente Médio e da Ucrânia por enquanto são apenas hipotéticas, e a Rússia tem tempo suficiente para neutraliza-las. Seria conveniente a cooperação com os Estados Unidos e com a Europa, para quem a islamização da Ásia Central representa uma ameaça bem séria. Porém, tendo em conta as relações atuais entre Moscou e esses países, a possibilidade de colaboração construtiva nesta área é pouco provável, o que é de lamentar, pois na história da cooperação entre serviços secretos russos e ocidentais constam muitos casos encorajadores.

 

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