Os caminhos que levam à América Latina

As relações políticas entre Rússia e América Latina são mais robustas do que as econômicas Foto: Mikhail Kleméntiev/RIA Nóvosti

As relações políticas entre Rússia e América Latina são mais robustas do que as econômicas Foto: Mikhail Kleméntiev/RIA Nóvosti

Atualmente, a comunidade internacional lança um novo olhar para a América Latina, formada principalmente por economias robustas, crescentes e estáveis.

O potencial econômico dos países da latino-americanos é impressionante: 600 milhões de pessoas compõem um potencial mercado consumidor e indicadores de 2013 mostrando um PIB conjunto de US$ 6 trilhões.

A América Latina também é potência no mercado mundial de minérios: 47% de prata, 41% de bauxita, 27% de estanho e 22% de zinco mundiais são extraídos dos países do continente. A região possui ainda 18% das reservas mundiais comprovadas de petróleo e é responsável por 9% da produção mundial total de grãos, 52% de soja, 30% de carne bovina e 24% de aves.

Reação russa

Os cidadãos russos estão satisfeitos com o desenvolvimento da cooperação entre a Rússia e a América Latina. Como demonstrou a Fundação “Obschestvenoe Mnenie” (FOM), 62% dos habitantes do país acreditam que a Rússia tem boas relações com os países latino-americanos, contra 16% acreditam que as relações “não são amigáveis”; 22% ficaram indecisos.

De acordo com especialistas, a opinião da população do país foi reforçada pela recente visita do presidente Vladímir Putin à região.

“Para a Rússia, é muito importante expandir seus laços com países que estão menos suscetíveis à pressão do Ocidente”, afirmou à Gazeta Russa o vice-diretor do Instituto América Latina da Academia Russa de Ciências, Borís Martinov.

“Se já observávamos há muito tempo uma certa tendência de Moscou em reforçar as relações de política externa com a América Latina, a visita de Pútin demonstrou que a Rússia agora pretende também diversificar suas relações econômicas com os países da região, principalmente agora que EUA e União Europeia impuseram sanções contra o país”, completou o especilista.

As relações políticas entre Rússia e América Latina são mais robustas do que as econômicas. Isso se deve ao contato econômico entre estes países, que está atrasado em forma e método em comparação aos padrões internacionais. As empresas russas não são conhecidas na região e as exportações mútuas e importações são pouco diversificadas. A base de fornecimento de produtos russos à América Latina é composta por fertilizantes mineirais, minérios e alguns produtos técnico-militares. Já as importações russas são limitadas a produtos agrícolas, cujos preços estão sujeitos à flutuação da demanda e das conjunturas socioeconômicas. Por fim, os contatos nas áreas financeira, de investimentos e de cooperação técnico-científica ainda são bem frágeis.

Com o objetivo de reverter a situação, Pútin visitou Cuba, Argentina e Brasil, promovendo um amplo pacote de acordos de cooperação nas áreas de energia –inclusive nuclear–, aviação, telecomunicações, utilização do espaço exterior para fins pacíficos etc. Isso poderá render contratos de bilhões de dólares, bem como projetos conjuntos em áreas técnicas promissoras, capazes de unir de vez a Rússia aos países da região.

Concorrência

No entanto, a “conquista” da América Latina é um jogo com sérios concorrentes. A China já é considerada na região o maior investidor e parceiro comercial. O volume de comércio entre a República Popular da China e a América Latina no período de 2000 a 2013 saltou de US$ 15 bilhões para US$ 260 bilhões (em comparação, o comércio russo-latino-americano é atualmente de US$ 17,5 bilhões). Em volume de negócios, a China já ultrapassou os Estados Unidos em relação a Brasil, Chile e Peru.

Após a recente Cúpula dos Brics (Brasi, Rússia, Índia, China, Áfricado Sul) no Brasil, o presidente chinês, Xi Jinping, promoveu um tour de nove dias pela região e concedeu à Argentina e Venezuela generosos empréstimos. Caracas ofereceu uma contraproposta ao pagamento dos empréstimos de US$ 4 bilhões em petróleo, gás e outros minerais. Buenos Aires, por sua vez, irá compensar o empréstimo chinês de US$ 11 bilhões com petróleo e produtos agropecuários. O líder chinês terminou sua visita em Cuba, onde também apresentou propostas de empréstimos.

A China possui um projeto com a Nicarágua para a construção de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico de US$ 40 bilhões e que será o principal concorrente do Canal do Panamá. A Rússia tem um importante papel neste projeto. Apesar de não fornecer apoio econômico-organizacional, será o país que garantirá a segurança militar para a construção da passagem.

O premier japonês, Shinzo Abe, também visitou a América Latina recentemente, entre os dias 25 de julho a 4 de agosto, logo depois dos líderes russos e chineses. O Japão, assim como a China, necessita muito dos recursos energéticos, matérias-primas e produtos alimentícios produzidos no continente.

“A visita de Abe à região reflete a linha de pensamento sobre a forte revitalização da diplomacia japonesa no cenário mundial. Este é o curso de ação que Abe pretende levar a cabo, sob o lema ‘o Japão está de volta’”, disse em entrevista à Gazeta Russa o chefe do Centro de Estudos Japoneses do Instituo de Estudos do Extremo Oriente da Academia Russa de Ciências, Valeri Kistanov.

O especialista ainda acredita que Washington desaprova a sucessão de visitas dos líderes de três potências mundiais à região, que sempre foi considerada seu “quintal”.

A América Latina parece agora estar à procura de uma nova bússola moral e política com a Rússia, de dinheiro com a China e de tecnologia com o Japão.

 

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