Imprensa internacional trata Moscou como ‘Estado pária’, diz cientista político

"A Rússia está muito ligada aos mercados globais, sobretudo aos da Europa" Foto: Seguêi Piatakov/RIA Nóvosti

"A Rússia está muito ligada aos mercados globais, sobretudo aos da Europa" Foto: Seguêi Piatakov/RIA Nóvosti

Fiódor Lukianov acredita que sanções prejudicarão a economia do país e Brics não apoiarão oposição russa ao governo da Ucrânia.

Desde o fim da Guerra Fria, nunca Moscou foi submetida a uma pressão tão intensa por parte do Ocidente como atualmente. A mídia europeia e americana apresenta imagens demonizadas da Rússia e de Vladímir Pútin.

Em entrevista concendida ao portal Lenta.ru, o presidente doConselho de Política Externa e de Defesa, Fiodor Lukianov, declarou que não adianta sobrevalorizar o peso dos interesses comerciais de empresários europeus, que os levaria a não apoiar as sanções drásticas contra a Rússia, nem contar com que os BRICS apoiem o país, mesmo à custa de prejuízos econômicos.

Lenta.ru: Há quem diga que Moscou já está habituada a ser discriminada pelo Ocidente, de modo que as sanções impostas são desagradáveis, mas não fatais. O senhor concorda com essa visão?

Fiodor Lukianov: Claro que as sanções não são fatais; no entanto, caso sejam concretizadas, certamente irão deteriorar a economia e exigirão um modelo de desenvolvimento totalmente diferente. A meu ver, tal modelo ainda não existe, pois não foram elaborados mecanismos de defesa contra um bloqueio drástico do Ocidente.

A Rússia está muito ligada aos mercados globais, sobretudo aos da Europa, apesar de não ter se entranhado tanto no ambiente global moderno como, por exemplo, a China. Por isso, não adianta fingir que as medidas repressivas são inócuas. Tampouco apostaria nos interesses comerciais da Europa na Rússia. É claro que as medidas contra o nosso país são extremamente inconvenientes aos europeus. Apesar disso, a pressão dos EUA é muito forte, e a intoxicação informativa em torno dos acontecimentos na Ucrânia e do Boeing abatido se torna cada vez maior. A imprensa internacional trata a Rússia como um Estado pária. Não encontro, no passado, um ataque informativo tão intensamente feroz como o de hoje.

Em resumo, não há motivo para entrarmos em pânico, mas devemos ter consciência da força deste ataque informativo, que a Rússia nunca experimentou após 1991.

O fato de a Rússia se voltar para o Oriente e sua aproximação da China e de outros países dos Brics poderão compensar as relações desgastadas com o Ocidente?

Até certo ponto, sim. Para tal, precisamos nos empenhar nesse trabalho, tomarmos a iniciativa, sermos positivamente persistentes. A Rússia não terá apoio dos Brics quanto a sua oposição ao atual governo ucraniano, nem de quaisquer outros países em desenvolvimento; eles não estão interessados em apoiar quem for contra o governo ucraniano. É que a interpretação das ações da Rússia, que levaram às alterações de fronteiras mundialmente reconhecidas, não corresponde à ética das relações internacionais defendida pela China, Índia e outros países em crescimento.

Ao mesmo tempo, para Pequim, Nova Déli, Brasília, Pretória, Teerã e Buenos Aires, estão muito claros dois fatos: que os atos da Rússia têm um longo histórico e que com eles o país responde à pressão do Ocidente, que estava alargando cada vez mais suas áreas de influência. É por isso que os Brics não vão se juntar ao coro dos acusadores da Rússia que está sendo formado por Washington. Além disso, a China, por exemplo, considera que a “luta pela Ucrânia” não é um conflito local, mas uma briga pelo formato da futura hierarquia global. Se a Rússia perder, os EUA ganharão força, o que significaria o aumento da pressão sobre a China. Por conta disso, temos garantido certo apoio.

Nosso problema reside no fato de a chamada “volta para Oriente”, bem como outros objetivos ambiciosos que são necessários e úteis na situação atual, levarem tempo, sem resultados visíveis a curto prazo, enquanto as condições externas se degradam a cada dia. É óbvio que a China hoje, quando a Rússia tem muito menos espaço de manobra, tem uma relação com Moscou muito diferente da do passado, quando tínhamos muito mais escolhas. Atualmente, na política russa, a questão das prioridades é muito importante. Se a prioridade for dada à defesa da população russa nos outros países, podemos ter certeza de que não ganharemos aliados. A implementação de tal prioridade absorveria tantos esforços e meios, que nada restaria para outros setores.

O que o Ocidente tenta alcançar fomentando cada vez mais sanções contra a Rússia?

O Ocidente tenta acabar com qualquer apoio às forças pró-Rússia na Ucrânia. Esse é o objetivo a curto prazo, pois é importante para os EUA que Kiev obtenha uma vitória militar, inevitável se a Rússia fechar suas fronteiras, mas isso de modo algum resolveria a crise ucraniana. Sem dúvida, nesse cenário, surgiria outra forma de resistência e instabilidade, ainda que as autoridades ucranianas estabelecessem seu controle territorial.

O objetivo a longo prazo, penso eu, é conseguir certas mudanças na política interna da Rússia, ou seja, a mudança de regime. Acho que, depois de tudo que aconteceu na primavera e no verão [correspondente aos meses de março a junho no hemisfério Norte], um relacionamento normal entre Moscou e Washington se tornou impossível. Não só com o atual presidente, Barack Obama, mas provavelmente com seu sucessor também. O Kremlin também encara os EUA como um inimigo declarado. Portanto, o ideal para o governo americano seria que Pútin saísse de cena. Por isso mesmo, a demonização do presidente russo atingiu seu auge e os ataques se tornaram pessoais. Claro que não se trata de uma intervenção direta: o enfraquecimento econômico da Rússia por meio de sanções é um estratagema, a longo prazo, para enfraquecer o atual governo.

A operação israelense na faixa de Gaza causou a morte de centenas de pessoas em poucos dias. Por que ela provoca muito menos indignação no Ocidente do que o conflito ucraniano?

Existem várias razões para isso. Em primeiro lugar, o mundo todo já está habituado às crises regulares entre a Palestina e Israel. Segundo, nos EUA há muitos apoiadores de Israel, que saúdam todas as ações sionistas, sendo este lobby muito influente. Terceiro, nos países europeus, o sentimento de culpa pelo Holocausto continua muito vivo, ainda que haja muitos mais apoiadores da Palestina na Europa do que nos EUA. Por isso, na Europa, também não se ouvem muitas críticas a Israel, e se afirma que o país está protegendo sua própria segurança mediante a força militar.

Em discurso diante do Conselho de Segurança, Pútin declarou: “A Rússia, graças a Deus, não faz parte de nenhuma aliança. Isso garante, em grande parte, a nossa soberania. Qualquer país que entra em uma aliança cede parte de sua soberania”.Como se enquadra nesse contexto a Organização do Tratado de Segurança Coletiva?

Acho essa declaração bastante estranha, pois dá a entender que a Rússia não encara a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) como uma aliança e não pretende limitar sua própria liberdade de ação para atender aos interesses dos aliados.

Parece que o presidente não tinha em mente a OTSC, mas as uniões em que reinam os Estados Unidos. É natural que as alianças deste tipo limitem a soberania. Eis aqui um problema da OTSC e das outras uniões formadas pela Rússia: quando surge uma questão verdadeiramente significante, séria, estrategicamente importante, Moscou deixa de pensar nessas organizações e atua como lhe convém. Esta posição é explicável, mas não concorre para a criação de institutos que a Rússia possa liderar. Estar satisfeito por não ter aliados é algo admirável.

 

Publicado originalmente pela Lenta.ru

 

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