A Rússia e o Ocidente caminham rumo a uma segunda Guerra Fria?

Congresso no Brasil discute situação do país em meio à crise no leste da Ucrânia Foto: Valeria Saccone

Congresso no Brasil discute situação do país em meio à crise no leste da Ucrânia Foto: Valeria Saccone

Congresso no Brasil discute situação do país em meio à crise no leste da Ucrânia.

“Segunda Guerra Fria” foi a definição mais usada durante o congresso Política Externa Russa, promovido em 25 de julho pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais e pelo Conselho Empresarial Rússia-Brasil no Rio de Janeiro, para descrever o que acontece atualmente no leste da Europa.

A guerra na Ucrânia, a derrubada de um avião malaio repleto de passageiros europeus - supostamente pelas mãos de rebeldes pró-Rússia -, e as sanções econômicas que a União Europeia poderá aprovar nesta semana contra a Rússia esboçam um cenário muito conturbado não apenas na região, mas também em nível global.

É possível que uma nova ordem mundial surja depois dessa crise, com o Brasil e os outros países integrantes do BRICS desempenhando um papel muito importante nas relações multilaterais com a Rússia. A recente visita do presidente russo, Vladímir Pútin, ao Brasil e à América Latina foi prova disso.

A Rússia iniciou uma nova política externa em fevereiro de 2013, “cujo objetivo é proteger os interesses do Estado e dos indivíduos”, segundo o cônsul-geral da Federação Russa no Rio de Janeiro, Andrêi Budaev. A nova tendência é clara e urgente: a Rússia não aceita imposições, somente diálogos horizontais, ou seja, com interlocutores que estejam no mesmo nível.

“Os jornais estrangeiros acusam o presidente Vladímir Pútin de adotar a velha política imperialista e agressiva, e advertem que o mundo teria que se defender dele. Lendo a imprensa estrangeira, parece que só agora a Rússia decidiu assumir um papel ativo no cenário internacional”, afirma Geórgui Toloraia, diretor executivo do Comitê Russo de Pesquisa do BRICS e principal palestrante do painel “O lugar da Rússia na geopolítica atual”. Para o especialista, os EUA tentaram fazer com que a Rússia assumisse o papel de inimigo derrotado após o fim da Guerra Fria, algo que o país jamais aceitou.

“Não nos conformamos com o papel de simples fornecedores de energia e matérias-primas para o Ocidente. Quando a Rússia começou a realizar sua política exterior de forma ativa, defendendo seus interesses nacionais, todo o mundo se surpreendeu. A crise na Ucrânia demonstrou que a Rússia tem uma política externa independente e que os EUA não ganharam a Guerra Fria como parecia”, afirma Toloraia.

Essa mudança não foi aceita pela União Europeia e nem pelo presidente dos EUA, Barack Obama. Uma guerra midiática, parecida com a de 50 anos atrás, explodiu nas últimas semanas. “Estava nos EUA quando o avião malaio foi derrubado e pude constatar em primeira mão que o tratamento midiático que estão dando ao ocorrido é terrível. O ‘sovietologismo’ da Guerra Fria está voltando e a Rússia está sendo tratada pelos meios de comunicação como um demônio”, conta Fabiano Mielniczuk, professor da PUC do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Não me lembro de ter lido artigos tão fortes nem mesmo na época da Guerra Fria. Só podemos comparar esse tratamento jornalístico ao que é dado à Coreia do Norte”, completa Toloraia.

 “Parece que está desaparecendo a possibilidade de existir uma relação paritária com o Ocidente”, declara Serguêi Sementsov, do Departamento de Análise Estratégica e Desenvolvimento do Vnecheconombank. Em sua palestra, intitulada “A reinserção da Rússia na economia política global”, Sementsov também disse acreditar que uma segunda Guerra Fria acaba de começar.

As perspectivas desse novo cenário internacional são complexas e pouco animadoras. “Está claro que o confronto geopolítico tende a aumentar. Nosso esforço para não estragar as relações com a União Europeia não está tendo êxito. Estão tentando afastar a Rússia da Europa”, afirma Toloraia em relação às sanções econômicas da UE. “A Rússia viverá um período difícil nos próximos anos. Teremos que evitar responder às pressões exteriores e às provocações, mantendo ao mesmo tempo nossa postura. E não haverá saída a não ser aceitar as perdas econômicas decorrentes das sanções”, acrescenta. Alguns analistas falam sobre uma possível recessão da economia russa, que já não cresce como antes.

Cabe destacar que nem todos os membros da família europeia estão de acordo com as sanções. A Alemanha, que tinha 28 cidadãos a bordo do avião derrubado, prefere não atacar a Rússia no setor financeiro. “Meu país depende muito da Rússia. Hoje, importamos 30% do gás e 35% do petróleo de lá. Cerca de 6.000 empresas alemãs atuam na Rússia. E a Rússia também depende da Alemanha: fornecemos ao país uma tecnologia sem a qual a produção de petróleo russo pararia”, destaca Felix Dane, da Fundação Konrad Adenauer.

As consequências das sanções podem ser muito graves. “A Europa pode ficar sem gás e nós sem as mercadorias que importamos. Isso pode afetar as empresas europeias e os consumidores russos. Tudo depende de sanções que estão sendo adotadas com base em critérios meramente políticos”, explica Toloraia.

Perguntado sobre até que ponto a Rússia está disposta a defender seus interesses e se imagina uma nova guerra na Europa, Toloraia responde: “Há um ano, se alguém tivesse me dito que tanques com canhões estariam circulando pelo território ucraniano, lutando e matando civis, eu não teria acreditado. Hoje, lamentavelmente é mais difícil parar uma guerra do que começá-la. Historicamente houve conflitos que ninguém queria, mas que mesmo assim aconteceram”.

 

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