Kremlin mantém ‘posição neutra’ sobre referendos em Donetsk e Lugansk

A atual agenda do governo russo não prevê, contudo, o reconhecimento imediato dos resultados dos referendos Foto: Reuters

A atual agenda do governo russo não prevê, contudo, o reconhecimento imediato dos resultados dos referendos Foto: Reuters

Iniciativa foi encarada pelas autoridades russas como uma tentativa de estimular o estabelecimento do diálogo entre o governo ucraniano e os representantes da região sudeste do país. Reconhecimento de novas repúblicas e anexação ao território russo não estão incluídos na agenda do governo.

“Os dirigentes russos respeitam a iniciativa da população das unidades federativas de Donetsk e Lugansk e esperam que os resultados dos referendos sejam usados nas negociações entre os representantes do governo nacional e as autoridades das regiões em questão”, diz o comunicado publicado pela assessoria de imprensa do Kremlin nesta segunda-feira (12).

“Para que as negociações sejam iniciadas, não descartaremos nenhuma medida adequada, inclusive a ajuda da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE)”, continua a declaração do governo russo.

Reflexo da insatisfação

Maksim Chevtchenko, membro do Conselho Presidencial dos Direitos Humanos e participante da votação em Slaviánsk e Kramatorsk como observador, revelou que “a população está cansada de políticos corruptos e pede o cumprimento dos seus direitos democráticos”, que os permitiriam ter controle sobre os orçamentos municipais e regionais. “Além disso, a população quer um outro tipo de relacionamento com o governo federal, exigindo a presença dos seus representantes nos órgãos de poder”, disse Chevtchenko à agência RIA Nóvosti.

Apesar de o governo da Ucrânia ter aceitado a proposta da OSCE sobre a nomeação do diplomata alemão Wolfgang Ischinger como moderador do diálogo, o presidente interino da Ucrânia, Aleksandr Turtchinov, desaprovou a iniciativa e os resultados dos referendos nas unidades federativas de Donetsk e Lugansk. Turtchinov não descarta a possibilidade de abertura dos processos criminais contra os seus organizadores.

A atual agenda do governo russo não prevê, contudo, o reconhecimento imediato dos resultados dos referendos. “A Rússia usaria as iniciativas tomadas pelas autoridades da região de Donbass para mediar as negociações”, explica Dmítri Polikanov, analista da agência de pesquisas políticas PIR-Center. “Mas o caso da Crimeia não deveria se repetir, pois os resultados dos últimos referendos não têm nenhuma utilidade para os dirigentes russos.”

Em entrevista coletiva realizada também nesta segunda, o chanceler russo Serguêi Lavrov reforçou que a organização de uma nova reunião internacional sem a participação dos representantes do sudeste ucraniano não terá o efeito desejado.

“No momento, não temos previsão para novos encontros dedicados ao assunto ucraniano, pois apenas quatro participantes não resolveriam o problema. Os meus colegas, inclusive o secretário-geral dos Estados Unidos, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, concordam com a necessidade de incluir ambos os participantes do conflito ucraniano nas negociações diretas”, declarou Lavrov.

Processo irreversível

Ao se esquivar do resultado dos referendos, a Rússia está se afastando de provocações capazes de agravar a crise política. “Mas o país não escapará de prejuízos, se satisfizer todas as vontades dos líderes ocidentais”, aponta o cientista político Serguêi Tcherniakhovski.

“A crise política envolvendo a Rússia e os ocidentais se tornou uma briga direta. A primeira demonstração de fraqueza resultaria em perda de posição conquistada por qualquer um dos participantes. Além disso, a manutenção de boas relações com os chefes globais não está entre as prioridades do governo russo.”

Na opinião de Rostislav Ischenko, politólogo ucraniano e presidente do Centro de Análise Sistemática, os últimos referendos não são capazes de mudar a atitude das autoridades da Ucrânia.

“A região sudeste está dominada pelo Exército russo, portanto, os chefes ucranianos continuarão participando dos confrontos e botando culpa no país vizinho pelo prejuízo e danos causados no decorrer do conflito”, diz Ischenko. “O atual governo é dirigido pela ambição dos EUA, portanto, enquanto a sua posição permanecer a mesma,  a atitude do chefes ucranianos não será alterada”, ressalta.

Polikanov acredita que nenhuma das forças externas tem plena capacidade de controlar os acontecimentos em solo ucraniano. “Assim como os países ocidentais, a Rússia não consegue exercer a influência completa sobre as ações dos seus aliados”, explica. “Após solto, o gênio não voltará à garrafa tão facilmente.”

 

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