“Impostos limitam potencial de cooperação Brasil-Rússia”

Fortaleza vai sediar encontro entre líderes do Brics em julho Foto: Monique Lapa

Fortaleza vai sediar encontro entre líderes do Brics em julho Foto: Monique Lapa

Em entrevista exclusiva à Gazeta Russa, o chefe da representação comercial da Rússia no Brasil, disse que país está pronto para intensificar projetos industriais e aumentar o comércio bilateral em US$ 10 bilhões.

Gazeta Russa:Quais áreas o senhor considera mais promissoras no comércio entre Rússia e Brasil?

Serguêi Lóguinov: O trabalho das missões comerciais tornou-se muito específico e direcionado. O nosso principal objetivo é promover as empresas russas em projetos industriais no Brasil, principalmente nas áreas de construção e infraestrutura, desenvolvimento de portos, aeroportos e ferrovias. Acreditamos que aí se concentra o maior número de oportunidades para a Rússia. 

Recentemente houve uma missão empresarial russa no Brasil, chefiada pelo vice-ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Aleksêi Likhachev. Tivemos conversações frutíferas em círculos governamentais e com a comunidade empresarial. Nosso time era composto pelas empresas ferroviárias Russian Railways (RZD), Uralvagonzavod, Pskovelectrosvar e Mechel. Temos todos os requisitos para a implementação de uma larga rede ferroviária no Brasil. Estamos prontos para ganhar as licitações, apesar do nível de concorrência ser bastante elevado.

GR: Essa proposta envolve a nacionalização da produção pelo Brasil?

SL: Não, porque as licitações se referem apenas a trechos de ferrovias. A segunda área mais promissora de cooperação é o setor de petróleo e gás. No Brasil, o interesse nessa área aumentou devido às descobertas de novos poços de petróleo no Oceano Atlântico e aos projetos na região amazônica. Durante a visita de Likhachev ao Brasil, a petrolífera Rosneft conduziu negociações com a Agência Nacional de Petróleo e com uma outra grande companhia especializada em construção no setor de petróleo e gás.

GR: No ano passado, houve uma redução no comércio bilateral entre a Rússia e o Brasil. Por que isso aconteceu?

SL: Na verdade, a redução no comércio ocorreu de forma favorável para a Rússia – diminuíram as importações de carne de porco e soja, e isso permitiu equalizar a balança comercial. Com a missão de aumentarmos o comércio para US$ 10 bilhões, essa redução deverá ser compensada pelo crescimento das exportações russas de componentes de alta tecnologia.

GR: A que tipo de tecnologias o senhor se refere?

SL: Creio que uma das áreas de cooperação é o setor habitacional e de serviços, em que a tecnologia russa poderá ser empregada. Além disso, há demanda por novas tecnologias em segurança pública, tanto em nível federal quanto estadual.

Outra área em que será possível reforçar a cooperação é a de infraestrutura. Exemplo disso é o fato de uma grande companhia de São Petersburgo ter vencido a licitação para a construção de um porto perto da cidade do Rio de Janeiro. Aliás, eles antes ignoravam os trabalhos das missões comerciais, mas agora trabalham em estreita colaboração. 

Há ainda a possibilidade de ampliação da cooperação no setor aeroespacial. Foram estabelecidos contatos entre os fabricantes de aeronaves, e vemos oportunidades de expandir o comércio de equipamentos que antes eram adquiridos em outros países. 

GR: O que mais desestimula o progresso do comércio bilateral?

SL: Nós ainda não conseguimos – e não conseguiremos em um futuro próximo – adquirir contas correntes para trabalhar com moeda nacional. Para que isso se torne possível, é necessário mudar a legislação brasileira, pois, nesse momento, é impossível para um estrangeiro não residente ter conta que trabalhe com o real.

Há ainda outros fatores que colocam o Brasil na categoria dos países mais difíceis de exportar. Devido ao boom da pecuária e da avicultura, os empresários brasileiros expressaram interesse em máquinas e outras ferramentas produzidas na Rússia para a produção e processamento de carnes. Mantivemos conversações com potenciais fornecedores russos que encontraram, em Tcheliábinsk, uma boa, embora não muito grande, empresa que estava disposta a vender suas máquinas por US$ 9.000. No entanto, até chegar às mãos do empresário final brasileiro, essas máquinas passariam por círculos infernais de burocracia que elevariam o seu custo final a US$ 40.000. Tudo por causa de impostos e outras taxas proibitivas. Os impostos limitam o potencial de expandir a cooperação entre os nossos países.  

GR: E o que acontecerá se não forem atingidos os US$ 10 bilhões esperados?

SL: Eles são realizáveis. O interesse russo na cooperação com empresas brasileiras é enorme. Só hoje foram realizadas várias reuniões [a entrevista foi feita durante uma reunião de representantes comerciais do Brasil e da Rússia, em Moscou], em que definimos nossos próximos passos conjuntos. E um dos parâmetros mais importantes é a obtenção de informações. Nós estamos mais confiantes, recebemos novos impulsos.

GR: Especula-se que o principal beneficiado pela deterioração das relações da Rússia com os EUA e a UE é a Ásia, especialmente a China. É possível que o comércio com o Brasil também aumente por causa disso?

SL: Os brasileiros estão enfrentando uma enorme pressão. Isso fica evidente pelas manchetes histéricas dos jornais que não toleram a política de neutralidade do Brasil. Paralelamente, o governo brasileiro tem mostrado uma firmeza consistente, apesar da grande influência da comunidade local ucraniana. Em audiências recentes no Congresso Nacional, o embaixador ucraniano tentou exigir ativamente que o Brasil expressasse sua reprovação às ações da Rússia – exigências que foram posteriormente negadas.

De qualquer forma, vemos que o Brasil não procura tirar vantagem da sua posição em favor de interesses próprios. O que o país quer, na verdade, é retomar a cooperação em matéria de importação de produtos agrícolas.

 

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