Sanções no setor espacial prejudicarão a própria Nasa

Rússia possui acordos intergovernamentais na área espacial com mais de 30 países Foto: wikipedia / jwmissel

Rússia possui acordos intergovernamentais na área espacial com mais de 30 países Foto: wikipedia / jwmissel

Autoridades dos Estados Unidos pretendem livrar o país da dependência tecnológica estrangeira. Decisão da Nasa de abandonar a colaboração com a agência espacial russa (Roscosmos) não afetou, porém, realização dos projetos conjuntos russo-europeus.

Na semana passada, o ministro de Defesa americano, Chuck Hagel. assinou um decreto que exige das forças aéreas nacionais a substituição dos motores russos RD-180, utilizados nos foguetes Atlas V, por análogos fabricados nos Estados Unidos. Além disso, os americanos não descartam a possibilidade de congelamento dos projetos de fornecimento dos motores NK-33 fabricados pela empresa russa OAO Kuznetsov.

Na opinião do Aleksandr Koptev, representante da agência espacial americana no Centro de Controle de Missão RKA, localizado na cidade de Korolev nas redondezas de Moscou, a escolha da Nasa em abandonar os projetos de colaboração com a Rússia prejudicará a própria agência.

Contraste no espaço

O lançamento de um satélite movido pelo foguete americano Atlas-5, equipado com o motor russo RD-180, foi um dos destaques da semana passada. Em entrevista ao jornal “Rossiyskaia Gazeta”, Vladímir Solntsev, diretor-executivo da empresa responsável Energomach, afirmou que os motores fabricados na Rússia superam os seus análogos americanos e possuem as melhores características energéticas especificas entre todos os sistemas de propulsão de combustível liquido que utilizam a mistura de oxigênio e querosene. Até o presente momento, foram efetuados 50 lançamentos bem-sucedidos dos foguetes equipados com os presentes motores.

O mesmo ponto de vista é compartilhado por Roald Sagdeev, ex-chefe do Instituto de Pesquisas Espaciais da Academia de Ciências da União Soviética. “Em primeiro lugar, as sanções comprometerão o trabalho dos cientistas”, disse Roald em entrevista à agência Itar-Tass, expressando preocupação com o projeto do satélite científico Radioastron, lançado há um ano e meio, cuja realização poderá ser dificultada pela crise política na Ucrânia.

“O projeto conta com a participação de vários países e consiste na comunicação simultânea dos telescópios auxiliares localizados em todos os continentes, um dos quais, o principal no território europeu, encontra-se em uma cidade da Crimeia. Por enquanto, o futuro do projeto é incerto, pois ainda não conseguimos identificar as possíveis consequências da última declaração da Nasa”, ressaltou o cientista.

Especula-se, contudo, que cientistas americanos encaminhem ao Congresso dos EUA um pedido de criação de uma lista de exceções, no qual serão incluídos os projetos russo-americanos.

Projetos internacionais

De acordo com a Roscosmos, a Rússia possui acordos intergovernamentais na área espacial com mais de 30 países, tais como Estados Unidos, Japão, Índia, Brasil, Suécia, Argentina e os Estados-membros da Agência Espacial Europeia.

A colaboração internacional já resultou em realização bem-sucedida de uma série de projetos espaciais incluídas na agenda da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), assim como em elaboração de propostas para a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e os países dos Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul).

Além disso, o governo russo oferece lançamentos comerciais dos satélites estrangeiros em seus foguetes.  Nos últimos cinco anos, o foguete Dnepr levou ao espaço os aparelhos pertencentes aos Emirados Árabes Unidos, Coreia, Itália, EUA, Canadá, Holanda e Ucrânia, enquanto o foguete Proton-M colocou em órbita terrestre os satélites do México, Reino Unido e Turquia.

Colaboração russo-europeia

A recente crise política não afetou a realização dos projetos espaciais conjuntos russo-europeus. Na madrugada do dia 4 de abril, o sétimo foguete Soiuz-ST foi lançado do cosmódromo de Kourou, na Guiana Francesa, levando ao espaço o satélite europeu Sentinel 1A, com o objetivo de monitorar catástrofes naturais e dar suporte às operações de ajuda humanitária.

O projeto de lançamento dos veículos Soiuz no Centro Espacial de Kourou foi incluído em um acordo entre os governos russo e francês, assinado em 2003, que prevê o lançamento de outros três foguetes Soiuz da mesma base.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.