Pútin apela à Europa para resolver crise do gás na Ucrânia

Nos últimos quatro anos, Moscou teria ajudado a economia ucraniana no montante de US$ 35,4 bilhões Foto: ITAR-TASS

Nos últimos quatro anos, Moscou teria ajudado a economia ucraniana no montante de US$ 35,4 bilhões Foto: ITAR-TASS

Segundo o presidente russo, país não consegue mais apoiar sozinho a economia do vizinho por meio de descontos no comércio gás e perdão de dívidas. Nas próximas negociações sobre a estabilização da economia da Ucrânia, a Rússia vai insistir para que haja paridade entre as suas concessões e a contribuição da Europa.

No último dia 10, o presidente russo Vladímir Pútin enviou uma carta aos líderes dos 18 países europeus que compram a maior parte do gás russo fornecido à Europa. No documento, o presidente insistiu que a incapacidade da Ucrânia em pagar o gás obrigará a Rússia a limitar o fornecimento do produto, o que pode representar uma ameaça para o trânsito de gás aos países europeus.

As autoridades russas partem do pressuposto de que, ao longo dos últimos quatro anos, Moscou subsidiou a economia ucraniana à custa de descontos no preço do gás e outros benefícios no montante de US$ 35,4 bilhões.

Pútin sugeriu a realização de reuniões extraordinárias com todos os ministros da Economia, Finanças e Energia envolvidos na questão “com o objetivo de desenvolver uma ação coordenada para estabilização da economia ucraniana e garantir o fornecimento e trânsito do gás russo”.

“Nossos parceiros europeus reconhecem a legitimidade das atuais autoridades de Kiev, mas não fazem nada para apoiar a Ucrânia, não deram um único dólar, um único euro ao país”, disse Pútin, ao afirmar que a Rússia, embora não reconhecendo a legitimidade do poder em Kiev, continua prestando apoio econômico e subsídios ao país vizinho.

Segundo o assessor do Kremlin, Dmítri Peskov, uma vez que cada um desses países é comprador de gás, todos devem fazer parte das negociações. “Não é possível negociar só com Comissão Europeia, porque não é ela a compradora”, explicou.

A imprensa russa ressaltou que o recente passo deve reforçar a posição de Moscou nas negociações de resolução da situação ucraniana no formato “3+1”, previstas para 17 de abril. O objetivo seria dificultar a consolidação da abordagem do Ocidente e retirar a discussão em torno da Ucrânia da esfera geopolítica para levá-la à prática.

Sob pressão

Especula-se que, assim, a Rússia espera que Kiev retire suas reivindicações referentes à Crimeia em troca do perdão da dívida do gás e que o Ocidente reconheça a península como parte do país. “Nenhum governo aceita perder território assim tão facilmente. Por isso, não haverá qualquer reconhecimento formal nem renúncia à reivindicação”, contesta o vice-presidente do Centro de Tecnologias Políticas, Aleksêi Makarkin.

Paralelamente, o cientista político acredita na possibilidade de selar acordos informais. Um deles seria a Ucrânia garantir que não organizará qualquer bloqueio econômico à Crimeia, se a Rússia não agravar a situação da dívida do gás.

No Ocidente já soam as preocupações sobre a vulnerabilidade dos países do continente no setor do gás. Tim Bersma, especialista em energia da Brookings Institution (EUA), disse ao jornal “Vzgliad” que “os apelos dos EUA para isolar a Rússia podem parecer uma ideia atraente, mas o preço a pagar por ela é muito alto e será precisamente a Europa a pagar, e não os EUA”.

O otimismo demonstrado pela Europa, segundo Bersma, é “inapropriado e estúpido, porque põe em causa relações comerciais de longo prazo e estáveis”.

Revisão do contrato

Na sexta-feira passada (11), o chefe do Ministério da Energia e Indústria do Carvão da Ucrânia, Iúri Prodan, declarou que a agência já está preparando a documentação para apelar ao Tribunal de Arbitragem de Estocolmo a fim de revisar o contrato de gás com a Rússia.

“A Ucrânia pode apelar para o fato de o preço de US$ 485 por 1000 m³ de gás ser bem mais elevado do que o preço praticado aos parceiros contratuais europeus da Gazprom, mas, mesmo que ela consiga a redução do preço até o nível praticado na Europa, de todo o modo, ele ficará em torno de US$ 400”, rebate Serguêi Aguibalov, chefe do departamento econômico do Instituto de Energia e Finanças.

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