Militares e refugiados descrevem dia a dia na fronteira russo-ucraniana

Ao regressar a Donetsk, nota-se que nenhuma medida especial de segurança vem sendo tomada na cidade ao longo das últimas semanas Foto: ITAR-TASS

Ao regressar a Donetsk, nota-se que nenhuma medida especial de segurança vem sendo tomada na cidade ao longo das últimas semanas Foto: ITAR-TASS

Reforço nos postos de controle e centros adaptados para exilados modificam cenário em regiões localizadas entre os dois países.

No dia 1o de abril, a assessoria de imprensa do Ministério da Defesa russo anunciou a retirada do batalhão da 15ª brigada de infantaria da região de Rostov, onde estava em exercícios, e o seu retorno ao quartel em Samara.

Embora o contingente de tropas na fronteira com a Ucrânia tenha diminuído, a presença de militares nas áreas de fronteira ainda é bastante perceptível. Em Taganrog, moradores contam que, na véspera do referendo na Crimeia, muitos veículos militares passaram na direção da Ucrânia e ainda não voltaram.

“Por outro lado, se algo sério estivesse sendo planejado, os veículos teriam sido levados de noite, escondidos, e não arrastados por toda a cidade em plena luz do dia”, analisa o jornalista local Evguêni Friedman.

Alguns exercícios militares também continuam sendo realizados. Perto dos pequenos povoados de Kuzminka e Chkalov, a 130 quilômetros da fronteira, existe um campo de treinamento militar onde foram conduzidos exercícios das tropas aerotransportadas em meados de março.

As estradas de terra batida que levam ao campo de treinamento foram consertadas, e o território em volta dele continua sendo controlado por soldados que, em grupos de dois ou três homens, se aquecem nas fogueiras feitas na beiras da estrada. “O acesso ao campo estará vedado ainda por alguns dias”, diz o vigia de serviço na entrada do campo militar que travou a passagem do repórter.

No norte da região, a paisagem é um tanto diferente. Em Novochakhtinsk, não há nenhum soldado nem veículo. Ao longo da fronteira paralela à rodovia Donbass rumo ao norte, encontra-se estradas de terra, nem sempre assinaladas no mapa, que começaram a ser alargadas antes de receber o asfalto.

Os guardas da fronteira russa alertam que só um em cada dois homens com passaporte russo está conseguindo autorização para entrar na Ucrânia. “Agora, tentamos não atravessar a fronteira com placas russas”, reclamam os motoristas no terminal local de ônibus. “É melhor cruzar a fronteira a pé e ir a Lugansk com um táxi.”

Nos postos de controle ucranianos, o tempo médio para passagem é de uma hora e meia. A gravação em vídeo faz diversas perguntas, tais como “para onde você vai?”, “quantas vezes esteve na Ucrânia nos últimos meses?”, “quanto dinheiro está levando contigo?” e “quem você conhece em Kiev?”. Ao fim das questões, geralmente impedem a passagem sob o pretexto de “não confirmação da estadia planejada no território da Ucrânia”.

Promessa para refugiados

Ao regressar a Donetsk, nota-se que nenhuma medida especial de segurança vem sendo tomada na cidade ao longo das últimas semanas. Alguns centros de tratamento foram adaptados para receber eventuais refugiados da Ucrânia. No posto de acolhimento mais perto da fronteira do país, não se observa uma grande quantidade de refugiados.

A 20 km de Taganrog, no povoado de Zolotaia Kossa, os cidadãos provenientes da Ucrânia são mantidos há quase duas semanas no centro de tratamento infantil Romachka, na costa do mar de Azov. No total, são 34 pessoas, a maioria vinda das regiões do sudeste do país.

Uma família de 14 pessoas chegou à região de Rostov vinda de Nikolaiev. “Extremistas organizam saques, espancam russos, fazem ataques armados contra táxis e ônibus”, explica o pai, que preferiu não se identificar.

O Ministério do Trabalho da região de Rostov está procurando trabalho para os recém-chegados, mas as autoridades locais não estão com pressa em emitir o estatuto de refugiados políticos aos que chegam, quiçá conceder documentos para cidadania.

O construtor Artiom, acompanhado de sua esposa e dois filhos, chegou ao Romaschka vindo da região de Lugansk. “Não tem simplesmente nada para fazer lá. Não tem trabalho, ninguém quer construir nada sem saber o que o futuro trará”, conta.

Segundo ele, a maioria dos habitantes de Romaschka se tornaram refugiados não por causa de ameaças à população russa que vive na Ucrânia, mas porque ouviram dizer na TV que, imediatamente após cruzarem a fronteira e o reconhecimento do estatuto de refugiados, receberiam cidadania russa, alojamento e ajuda financeira.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

 

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