Crise ucraniana serve de catapulta comercial para os Brics

Países dos Brics estão caminhando para a intensificação dos investimentos mútuos Foto: Reuters

Países dos Brics estão caminhando para a intensificação dos investimentos mútuos Foto: Reuters

Eventos na Ucrânia podem fortalecer ainda mais os laços econômicos entre a Rússia e os países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Política ajustada ao setor financeiro promete impulsionar parceria entre os membros do grupo.

“Os membros do grupo já tinham decidido criar um Banco de Desenvolvimento próprio, e agora os acontecimentos que envolveram a Ucrânia apenas enfatizaram a integridade da decisão tomada”, salienta o consultor da FCG, Vladímir Lupenko. “Assim, os Brics poderão efetuar transações monetárias, que aumentarão suas chances de defender suas moedas em caso de guerra cambial.”

Os últimos acontecimentos envolvendo a Rússia evidenciaram também que a utilização de dólares ou euros pelos países dos Brics para transações e pagamentos com SWIFT-Code os coloca em uma posição de dependência do Ocidente. A inesperada decisão da Visa e da Mastercard de bloquear operações de cartões de pessoas atingidas pelas sanções dos EUA  deixou claro essa elevada dependência.

“A criação de um fundo monetário cambial pan-euroasiático, não indexado em dólar, poderia proporcionar um impulso já muito aguardado pelos sistemas financeiros regionais”, sugere o diretor do departamento analítico do grupo de investimento Nord-Kapital, Vladímir Rojankovski.

Pela avaliação de Mikhail Kroutikhine, economista da consultoria RusEnergy, de Moscou, o benefício mais significativo da deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente será refletido na China. “As sanções podem dificultar o acesso de empresas estatais russas a fontes de financiamento, e os chineses, possuidores de recursos financeiros substanciais, têm a chance de condicionar seus empréstimos e investimentos na Rússia à efetiva participação deles em projetos russos de prospecção e transporte de gás e petróleo”, explica.

O maior trunfo seria alargar a cooperação na esfera do complexo energético e de combustíveis. Além do que a Rússia não mais precisa mais da Europa e dos EUA para a manutenção de produção e prospecção de petróleo em novos campos. “A Rússia aprendeu por si mesma a fazer tubos e instalações que são compradas pela China ou são montados como se fossem deles, assim como plataformas que Coreia e China encomendam”, acrescenta Kroutikhine.

Assim, dentro de um ou dois anos seria possível reorientar a exportação de petróleo do oeste para o leste. No caso do gás é mais difícil, pois as suas instalações necessárias requerem um investimento significativo. Esse problema pode ser resolvido, contudo, se China ou Índia concordarem em se tornar âncoras para os compradores de gás da Sibéria Oriental. Esses dois países poderão ainda se envolver em projetos cosmonáuticos e de produção de energia atômica barata e confiável, além da cooperação técnico-militar.

O Brasil é outro membro plenamente capaz de aumentar a cooperação com a Rússia na área agrícola, considerando que a Europa está impossibilitada de exportar carne de porco à Rússia por causa da propagação de uma peste suína africana no continente. “Os países dos Brics, em um futuro próximo, promoverão de modo mais claro suas prioridades estratégicas comerciais, procurando adquirir, manter e reforçar suas conquistas econômicas. Isto não será alcançado sem a liberação das amarras financeiras”, argumenta Vassíli Iakimkin.

Além do comércio, os países dos Brics estão caminhando para a intensificação dos investimentos mútuos. O crescimento desses países ao longo dos últimos anos foi, em grande parte, baseado em investimentos provindos de países desenvolvidos, que agora podem ser substituídos por capital de países em desenvolvimento. “Parece-me que as companhias na Rússia e na China se fortaleceram suficientemente para tentar uma expansão em mercados estrangeiros”, afirma o analista financeiro Aleksandr Kuptsikevitch.

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