Autoridades locais temem efeito dominó na Transnístria

O território da Transnístria fazia parte da Rússia desde o final do século 18 Foto: ITAR-TASS

O território da Transnístria fazia parte da Rússia desde o final do século 18 Foto: ITAR-TASS

Após os desenvolvimentos na Crimeia, veio à tona a questão da Transnístria, região da Moldova com população russa que declarou a sua independência ainda em 1990, tendo se tornado independente de facto como resultado de um conflito armado em 1992. Como a situação na Transnístria é avaliada pelo governo da Moldova e da Rússia?

Chisinau: colapso da soberania

O atual presidente da Moldova, Nicolae Timofti, foi eleito em 2012 depois de conduzir uma campanha “Pela Integração Europeia”. A sua posição é inequívoca: deseja a retirada das tropas russas e o retorno da Transnístria à Moldova, sob a identificação de “região autônoma com estatuto especial”. Os partidos comunista de oposição, contudo, acreditam que a situação é um pouco mais complexa.

“Não” do Ocidente

Em 2003, com a participação de um enviado especial da Rússia, foi elaborado o Memorando Kozak, segundo a qual a Transnístria voltaria para a Moldova como membro da Federação. No último momento, o presidente do Partido Comunista, Vladímir Voronin, recusou-se a assinar o já rubricado memorando sob pressão do Ocidente.

O historiador, cientista político e deputado do parlamento pelo Partido Comunista da Moldova, Zurab Todua, alega que o Ocidente empurra persistentemente a Moldova para entrar em confronto com a Rússia. “Isso serve aos interesses das autoridades de Chisinau e Bucareste, que estão contando com a absorção da Moldova pela Romênia e estão dispostos a sacrificar a Transnístria”, explica.

No entanto, se os acontecimentos tomarem um caráter de “desmoronamento”, apenas uma parte da porção ocidental da Moldova passará para a Romênia. “A maioria da população, especialmente no norte e no sul do país, é a favor da integração na União Aduaneira e na União Econômica da Eurásia junto com a Rússia”, diz Todua.

Diante da situação, a Moldova teria apenas duas hipóteses para evitar um cenário no estilo da Crimeia" ou Ossétia do Sul na Transnístria. “Primeiro, se Chisinau não tentar resolver a questão territorial por meios militares e, segundo, se o país mantiver a estabilidade política interna”, acrescenta o deputado.

Ameaça interna

São cerca de 2.000 os militares russos na Transnístria: 1500 funcionários das tropas de força-tarefa e 400 soldados das forças pacificadoras. Esse número de soldados russos é considerado "ameaçador" na Ucrânia moderna.

Quanto à estabilidade, muitos já têm sérias dúvidas da sua existência. “Estamos assistindo na Moldova à romenização aberta e escancarada da população”, aponta o presidente do Partido dos Socialistas e deputado parlamentar, Igor Dodon. “Na região autônoma da Gagaúza, foi negado o referendo sobre a questão do vetor externo, do mesmo modo que os referendos foram proibidos em todas as regiões do país. O poder tomou o intransigente rumo para o Ocidente, apesar de, segundo todas as pesquisas realizadas, mais da metade dos cidadãos quererem ver a Moldova na União Aduaneira.”

Segundo Dodon, a única coisa que pode reaproximar a Moldova das fronteiras soviéticas é a federalização do país. “Chisinau não tem outro modo de chegar a acordo pacífico e consensual com Tiráspol para resolver esse problema de vinte anos, senão mudar radicalmente a estrutura administrativa do país”, afirma. Para os romenos, entretanto, a federalização da Moldova significa o fim da esperança de anexar o território e criar a Grande Romênia.

Moscou: violação dos direitos humanos

O território da Transnístria fazia parte da Rússia desde o final do século 18. A sua atual capital é a cidade de Tiráspol, fundada por Aleksandr Suvorov em 1792. Antes da revolução de 1917, a Transnístria foi dividida entre as províncias de Kherson, Podolia e Bessarábia.

Porém, ao longo dos últimos 23 anos, a Rússia nunca questionou a integridade territorial da Moldova. “Mas tudo indica que brevemente a Transnístria se verá alvo de um bloqueio cerrado”, garante o diretor do Instituto Internacional para Novos Estados, Aleksêi Martinov. “Nessa situação, a Rússia não poderá ficar indiferente ao destino dos 200 mil cidadãos russos que residem no território da Transnístria.”

Características regionais

A Transnístria tem três povos residentes: moldavos (31,9%), russo (30,3%) e ucranianos (28,8%) e três línguas oficiais: o moldavo (com alfabeto cirílico), o russo e o ucraniano. A moeda oficial do Estado é o rublo da Transnístria.

Segundo ele, embora se fale um possível “cenário da Crimeia aplicado à Transnístria”, esta região deverá passar por um processo único. “Se as autoridades de Chisinau não iniciarem o processo de reconhecimento de um segundo governo moldavo – a República Moldava de Transnístria – a Transnístria pode se tornar em breve a 85º unidade territorial da Federação Russa”, alega o especialista.

Por outro lado, o reconhecimento da Transnístria e inclusão à Rússia pode levar ao aparecimento de mais problemas do que os criados na Crimeia, apesar de a população do Estado ainda não reconhecido ser numericamente três vezes inferior.

Em primeiro lugar, a Rússia não tem fronteira comum com a Transnístria, e a comunicação aérea é problemática, devido à inexistência de um aeroporto civil em Tiráspol. Além disso, a reação da Europa Ocidental e dos EUA seria bem mais histérica, acredita Martinov.

 

Publicado originalmente pelo Vzgliad

 

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