Sanções ocidentais podem fazer Rússia se voltar para a Ásia

Presidente da Rússia Vladímir Pútin (dir.) e primeiro-ministro japonês Shinzo Abe (esq.) Foto: Reuters

Presidente da Rússia Vladímir Pútin (dir.) e primeiro-ministro japonês Shinzo Abe (esq.) Foto: Reuters

Fortalecimento de relações comerciais com China, Japão e Coreia do Sul é alternativa para diminuição de parcerias com Europa e EUA.

As sanções ocidentais e a saída de investidores estrangeiros da Rússia devido à crise na Ucrânia forçarão o país euroasiático a melhorar suas relações com os parceiros orientais. Com isso, a Ásia poderia se tornar o principal mercado para os produtos russos e uma fonte de capital e tecnologia.

O congelamento de ativos russos nos EUA e a proibição da entrada de altos funcionários russos, diretores de empresas estatais e empresários que têm relações com o Kremlin nos EUA estão entre as sanções americanas impostas ao país.

“Essas sanções não só terão um impacto significativo sobre a economia russa, mas poderão afetar a economia global. No entanto, a Rússia deve entender que o aumento da tensão resultará em maior isolamento do país da comunidade internacional”, declarou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

A União Europeia aprovou sanções semelhantes e suspendeu as negociações sobre aumento do comércio e investimentos na Rússia, cooperação técnico-militar e abolição de vistos para cidadãos russos. Além disso, a Rússia foi excluída do G8, grupo do qual fazem parte Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá

O mundo empresarial interpreta a situação em torno da Ucrânia como um grande risco para todas as operações financeiras relacionadas com a Rússia. Além disso, a reação dos mercados financeiros globais também pode ser muito prejudicial para Moscou. As agências de classificação de risco Moody’s e Standard & Poors declararam que poderão rebaixar as notas de crédito da Rússia.

Caso isso aconteça, o preço dos empréstimos nos mercados estrangeiros começará a crescer. Isso poderia afetar as principais instituições financeiras da Rússia, como os bancos Sberbank e VTB, e todas as empresas do país que emprestam dinheiro do Ocidente.

De acordo com dados do Banco Central da Rússia, a dívida externa dos bancos russos ultrapassa US$ 215 bilhões, enquanto a dívida das empresas russas é de US$ 438 bilhões. Durante os próximos dois anos, os bancos deverão pagar cerca de US$ 88 bilhões e as empresas terão que devolver cerca de US$ 182 bilhões aos credores. Agora o governo russo tenta acumular reservas para comprar títulos de dívida privada de empresas do país, caso seja necessário. O mesmo aconteceu durante a crise de 2008-2009.

Além disso, por conta do aumento da tensão com os países ocidentais, as empresas russas poderão perder o acesso aos principais centros financeiros mundiais. Durante os últimos anos, a maioria dessas empresas realizou ofertas públicas iniciais (IPO) na bolsa de Londres, onde estão 53 companhias russas, com um volume de capitalização de quase US$ 500 bilhões. Agora, muitas empresas começarão a adiar as ofertas públicas.

A outra consequência negativa é a fuga de capitais, que pode ultrapassar US$ 50 bilhões por trimestre.

O desejo da União Europeia de reduzir sua dependência do petróleo e gás russos também afetará significativamente a economia do país. No entanto, devido ao alto nível da dependência energética, a Europa não será capaz de parar totalmente de comprar recursos energéticos da Rússia. A principal ameaça é uma possível liberalização das exportações de gás natural liquefeito vindo dos Estados Unidos.

Rumo ao Oriente

Apesar das dificuldades, parece que Moscou já elaborou um plano para cobrir essas perdas. Em resposta às sanções ocidentais, a Rússia planeja estreitar os laços comerciais e econômicos com o Oriente.

“A Ásia poderia se tornar uma alternativa para o mercado Europeu”, diz o vice-diretor da empresa de investimentos Eurasia Capital Partners, Sergio Men. De acordo com ele, os países asiáticos são os maiores mercados que poderiam comprar produtos russos como gás, petróleo, metais, produtos químicos e alimentos.

Desde 2009, a China é o maior parceiro comercial da Rússia, e o intercâmbio econômico entre os dois países ultrapassa US$ 89 bilhões. Apesar da tímida reação política aos acontecimentos na Crimeia, o gigante asiático já declarou que fornecerá ajuda financeira para a Rússia, caso o país seja afetado pelas sanções.

Além disso, a Rússia também poderia fortalecer a cooperação com parceiros alternativos, como Coreia do Sul e Japão, que estão muito preocupados com os sucessos econômicos da China. Após a chegada ao poder do primeiro-ministro Shinzo Abe, Tóquio espera aumentar a cooperação com a Rússia. O Japão não quer apenas abrir o seu mercado para as empresas russas, mas também ajudar o país a não se tornar um mero fornecedor de matérias-primas para a China.

Abe foi o único líder dos países do G7 que compareceu aos Jogos Olímpicos de Inverno em Sôtchi, com o objetivo de fortalecer as relações com o presidente russo, Vladímir Pútin.

Agora os EUA têm que resolver um complicado dilema geopolítico: continuar a pressionar Tóquio e Seul para aumentar o isolamento de Moscou ou permitir que os parceiros asiáticos introduzam sanções simbólicas, para que a Rússia não caia nas mãos dos chineses.

 

Publicado originalmente pelo jornal “Kommersant-Vlast”

 

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