Ban Ki-moon assume papel de pacificador na crise da Crimeia

Tendo ido falar aos jornalistas depois de uma longa conversa particular com Putin (dir.), Ban Ki-moon (esq.) disse que o encontro foi produtivo e construtivo Foto: ITAR-TASS

Tendo ido falar aos jornalistas depois de uma longa conversa particular com Putin (dir.), Ban Ki-moon (esq.) disse que o encontro foi produtivo e construtivo Foto: ITAR-TASS

O secretário-geral da ONU disse que fará o possível para restaurar as relações entre Moscou e Kiev.

O primeiro alto representante da comunidade internacional a visitar Moscou depois da reunificação da Crimeia à Rússia foi o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Ele passou a última quinta-feira (20) na capital russa, onde se encontrou com o ministro das Relações Exteriores, Serguêi Lavrov, e com o presidente russo, Vladimir Putin. O principal objetivo da visita do secretário-geral foi convencer as autoridades russas a iniciar conversações diretas com Kiev para resolver a crise na Crimeia de forma pacífica.

Antes de sua ida a Moscou, Ban Ki-moon não comentou pessoalmente os resultados do referendo na Crimeia. O único que se pronunciou foi seu assessor de imprensa, que informou que "o secretário-geral está profundamente decepcionado e teme que o referendo da Crimeia apenas venha dificultar ainda mais a situação". Na verdade, foi precisamente por este ponto que o secretário-geral iniciou a sua conversa com Lavrov, na mansão do Ministério das Relações Exteriores, durante um almoço.

O ministro russo falou da necessidade de a ONU ajudar a Ucrânia a normalizar a situação no país em nome da estabilidade duradoura. Além disso, Lavrov expressou a preocupação de Moscou em relação às inúmeras violações dos direitos da população de idioma russo nas regiões do leste e do sudeste da Ucrânia, bem como às tensões exercidas por grupos radicais com a conivência das novas autoridades de Kiev.

A situação da população russófona na Ucrânia foi também tema da coversa de Ban Ki-moon com o presidente Putin. O encontro deles no Kremlin se deu precisamente no momento em que a Duma (câmara do deputados na Rússia) votava a favor do Tratado de Adesão da Crimeia à Rússia, assinado na terça-feira (18) por Putin.

No entanto, na parte formal da reunião, os interlocutores não fizeram grandes declarações e não mencionaram a Crimeia. Ban Ki-moon disse apenas que "não pode deixar de manifestar preocupação com a situação em torno da Ucrânia".

Tendo ido falar aos jornalistas depois de uma longa conversa particular com Putin, Ban Ki-moon disse que o encontro, no qual trocaram opiniões sobre as possibilidades de superação da crise, foi produtivo e construtivo. "Agora, a minha tarefa é tentar evitar maiores derrapagens na situação, não permitir que estes acontecimentos venham a afetar negativamente a solução de outros problemas, incluindo o conflito iraniano", explicou.

O secretário-geral admitiu ter ido a Moscou "com um peso no coração". No Kremlin, ele exortou Putin a fazer todo o possível para evitar incidentes que possam agravar a crise. Para isso, ele crê ser necessário "estabelecer um diálogo honesto e construtivo entre Moscou e Kiev". Ambos os países devem evitar qualquer ação provocadora e precipitada que possa vir a agravar a situação já por si tensa e frágil. "Uma retórica dura e agressiva pode levar ao aumento das tensões e a possíveis decisões erradas, bem como a uma resposta perigosa", advertiu Ban Ki-moon.

Ele não só não condenou explicitamente o referendo da Crimeia, como disse compartilhar da preocupação da Rússia em relação à situação da população russófona da Ucrânia e falou da necessidade da sua proteção. "Eu disse ao presidente Putin que compreendo e compartilho de suas preocupações legítimas em relação à situação das minorias russas na Ucrânia. É necessário garantir que se cumpram os direitos de todos os cidadãos da Ucrânia, especialmente das minorias, é necessário respeitar esses direitos e protegê-los."

O secretário-geral crê que a melhor forma de diminuir esta preocupação é destacar observadores da ONU para a Ucrânia, que devem monitorar o respeito aos direitos humanos e relatar informações objetivas sobre o que está acontecendo. Segundo ele, alguns desses observadores já estão em território ucraniano, incluindo as partes oriental e sudeste do país.

Esses observadores fazem parte da missão que tem como finalidade fiscalizar o cumprimento dos direitos humanos na Ucrânia e é formada por 25 ucranianos e nove estrangeiros. Depois de regressar da Ucrânia, o secretário-geral assistente, Ivan Simonovic, disse que as violações crônicas dos direitos humanos se tornaram uma das principais causas dos tumultos no país. A corrupção, a ilegalidade, a falta de ordem e de direito a um julgamento justo, maus-tratos e más condições de detenção foram parte da realidade ucraniana por anos a fio. Simonovic também sublinhou a necessidade de uma investigação independente sobre o incidente com atiradores que abriram fogo contra manifestantes e forças policiais durante os protestos em Kiev no início do ano.

Logo após as negociações no Kremlin, o secretário-geral voou para Kiev, onde tinha programadas reuniões com o presidente interino, Aleksandr Turtchinov, e o chefe do governo, Arseni Iatseniuk. "Farei o que puder para ajudar a restaurar as boas relações entre a Federação Russa e a Ucrânia - dois países irmãos e dois membros fundadores da Organização das Nações Unidas", prometeu Ban Ki-moon ao se despedir em Moscou.

 

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