“O nacionalismo cria mitos”, diz cientista político

Uma das ruas centrais de Kiev Foto: RIA Nóvosti / Andrêi Stenin

Uma das ruas centrais de Kiev Foto: RIA Nóvosti / Andrêi Stenin

Em entrevista ao jornal russo “Rossiyskaya Gazeta”, o diretor do Instituto de Estratégia Nacional, Mikhail Remizov, falou sobre a situação atual em Kiev, as diferenças com os recentes protestos na Rússia e como as eleições poderão salvar a Ucrânia do caos.

Rossiyskaya Gazeta: Como você analisa os desdobramentos na praça da Independência, em Kiev?

 

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Mikhail Remizov: A Maidan (Praça de Independência) passou por várias fases. A primeira fase foi a “euromaidan”, uma grande campanha de propaganda para garantir à sociedade ucraniana que a adesão à União Europeia seria a realização do sonho dos ucranianos. No entanto, o acordo de associação com a UE não tinha nenhuma relação com uma possível europeização do país, fosse do ponto de vista cultural, social ou econômico. Ele não previa nenhuma vantagem: nem regime de isenção de vistos nem projetos para investimentos.

RG: Essa percepção equivocada foi resultado de uma propaganda eficaz? 

MR: Não, a propaganda sozinha teria falhado. Mas, aparentemente, na consciência de uma parte substancial dos ucranianos existe um certo complexo de inferioridade. Daí a necessidade de compensação pela aproximação com a Europa.

RG: O que se viu, contudo, foi que os protestos rapidamente passaram dessa relativamente pacífica “eurofase”. Não é surpreendente o fato de as inspirações da intelligentsia  estarem de acordo com as ações das brigadas de choque nacionalistas?

MR: O nacionalismo radical, aquele sem instrução, de rua, pode estar muito distante da massa intelectual do país no plano social, mas, em sua essência, é alimentado por pessoas em cujas mentes estão embutidos aqueles mesmos mitos ucranianos criados pela intelligentsia. O nacionalismo é criação dos intelectuais, porque inventa mitos nacionais.

RG: Você acredita que a revolução ucraniana tenha perdido o controle sobre os acontecimentos?

MR:Não, agora estamos em uma fase muito interessante de barganha política. Descobriu-se que os líderes da revolução não são as pessoas que controlam os radicais, como Klitchko e Tiagnibok. Portanto, eles não são as peças das negociações. Mesmo assim, o processo de normalização está de certa forma evoluindo, seja porque o “setor de direita” está, por meio de seus representantes, em contato direto com Ianukovitch, seja porque as agências de inteligência estrangeiras exercem influência sobre os organizadores desse setor. A verdade é que existe um “agente secreto” das negociações.

RG: Isso teria relação com a grande influência dos oligarcas? 

MR: Claro. A Ucrânia é o país mais oligarquizado do espaço pós-soviético. E não é por acaso que os oligarcas ucranianos são os principais adversários da aproximação com a Rússia e com a União Aduaneira. Eles temem ser comidos pelos oligarcas russos.

 

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RG: Especula-se que os oligarcas estejam nos bastidores dos protestos, tanto na praça da Independência, em Kiev, como na Bolôtnaia, em Moscou... 

MR: A classe média, seja em Moscou ou em Kiev, é um estrato bastante fino, e não a classe da maioria social, como nas décadas de 1960-80. Mas, nas grandes cidades, ela é bem perceptível.

Já existe uma geração que pensa em termos de serviços, e esse é um tipo de protesto cultural: “nós, tão bem-sucedidos e com instrução, devemos obedecer a pessoas selvagens e incorretas que estão no governo?”. Mesmo assim, esse tipo de motivação descreve mais a Bolôtnaia.

RG: Mesmo assim, os eventos na Bolôtnaia não se transformaram em uma revolução, como é observado em Kiev. Por quê? 

MR: Pois o nosso governo se comportou de modo mais inteligente. E na Rússia a amargura e o ódio extremo em relação ao poder são restritos a uma pequena minoria. Para haver uma explosão como na Maidan é preciso existir uma carga de ódio irracional muito forte, não basta apenas falta de confiança ou ceticismo em relação às autoridades.

RG: Isso quer dizer que os russos são mais céticos e sóbrios?

MR: Talvez o instinto de Estado seja mais forte na Rússia. A cultura política ucraniana se baseia no arquétipo do “círculo cossaco”, é mais anárquica. Já entre os russos prevalece que a ideia de que, mesmo se o Estado não presta, é melhor ter essa instituição do que não ter nenhuma. Assim, só é válido derrubar algo quando se tem certeza de que existe uma boa alternativa.

RG: Quais lições a Rússia pode tirar dos acontecimentos em Kiev? 

MR: Principalmente que o poder, a expansão da “família” e dos modelos corruptos de relações são observados de perto pela sociedade. Como as pessoas veem tudo, esse tipo de postura acaba inevitavelmente sofrendo um colapso. A sociedade, que parecia uma mera figurante, resguarda sua força interna e pode, em uma fração de segundos, transformar-se em elemento ativo.

RG: Qual é o seu prognóstico para as revoluções na Ucrânia? 

MR: Embora tudo tenha entrado agora na fase mais calma, a situação não está resolvida. Ianukovitch não tem recursos para um cenário de confronto de força nem as elites empresariais estão preparadas para ir com ele até o fim". Ele não conseguiu aprovar junto a Rada (Parlamento ucraniano) a decisão sobre o estado de emergência, e a adoção da medida por decreto presidencial iria privá-lo do seu único trunfo: a legitimidade do estatuto de presidente.

É difícil manter o poder em um cenário fora do confronto de forças por muito tempo. Por isso, acredito que a situação será resolvida nas eleições.

RG: Eleições antecipadas ou planejadas?

MR: Isso não importa muito. Talvez o sudeste da Ucrânia avance nessas eleições com uma figura mais neutra e forte. Mas então surge a dúvida de como vão reagir a essa vitória as populações da região oeste do país. Também é incerto qual seria a consequência da vitória de um líder da oposição. Porém, seja qual for o desfecho, o nacionalismo da Ucrânia ocidental no regime pós-Maidan terá um papel muito importante.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta 

 

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