Brasil é principal concorrente da Rússia na busca por investidores

Participantes do evento organizado em Davos pelo banco público russo Sberbank também se referem ao Brasil como o principal adversário da Rússia na luta pelos investimentos estrangeiros Foto: World Economic Forum / Nicola Pitaron

Participantes do evento organizado em Davos pelo banco público russo Sberbank também se referem ao Brasil como o principal adversário da Rússia na luta pelos investimentos estrangeiros Foto: World Economic Forum / Nicola Pitaron

A recuperação total dos fluxos de investimento de países desenvolvidos destinados às nações emergentes é prevista para os próximos dois ou três anos, afirmou Arkádi Dvorkovitch, vice-primeiro-ministro russo, em seu discurso durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. De acordo com essa previsão, haverá um aumento de concorrência pelos investimentos, enquanto o volume total poderá sofrer uma redução. Conforme as estimativas, a maior disputa pela atenção dos investidores acontecerá entre a Rússia e o Brasil, país que sediará os Jogos Olímpicos de 2016.

Plano de recuperação de investimentos

Os prazos e o cenário de recuperação dos investimentos vindos dos Estados Unidos, União Europeia e Japão foram assuntos importantes na agenda do Fórum Econômico Mundial em Davos. Arkádi Dvorkovitch, vice-primeiro-ministro da Rússia e chefe da representação do país no encontro, comentou o assunto numa das reuniões do evento e durante a sua entrevista à emissora de televisão russa Vésti 24. Os discursos de outros participantes do fórum, como a presidente brasileira, Dilma Rousseff,o  chefe do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, e representantes do Banco Central Europeu e do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, assim como dos presidentes de grandes empresas privadas, confirmaram a existência de uma opinião comum referente à possível duração da crise no mercado internacional. Ao contrário das previsões anteriores, de que haveria instabilidade nos próximos cinco anos, os especialistas acreditam em uma maior recuperação da economia dentro de dois ou três. A opinião comum é de que a futura estabilização resultará na recuperação parcial do fluxo de capital dos países desenvolvidos destinado aos mercados emergentes. Porém, no momento não existe nenhuma previsão do rumo de futuros investimentos para o período entre 2016 e 2017 que seja consenso entre os especialistas.


O ministro da Economia da Rússia, Aleksêi Uliukaev, tende a concordar com o ponto de vista conservador que sugere uma recuperação muito mais lenta do que a registrada até o ano de 2009. Segundo ele, o novo modelo de crescimento prevê a redução da velocidade de restauração da estabilidade econômica no mundo, mas indica uma grande possibilidade da melhoria mais rápida da situação a partir de 2015. Na opinião de Uliukaev, não haverá mudanças no grupo dos países composto pela China, Índia e os Estados do Sudeste Asiático, que através do crescimento de suas economias nacionais proporcionam desenvolvimento econômico ao mundo todo. No entanto, a combinação única de fatores responsável pelo pico do crescimento mundial no período entre 2005 e 2006 não deve se repetir desta vez. 

A maioria das avaliações da situação econômica na China tende a ser mais otimista. Liu Minkan, representante da instituição Fung Global Institute, com sede em Hong Kong, acredita existir uma grande probabilidade de aumento do PIB chinês em 6 ou 7% até 2020, opinião compartilhada com analistas e administradores de fundos de investimento chineses. Além disso, os novos cenários do desenvolvimento econômico da China preveem a redução da sua demanda por investimentos devido à diminuição da dependência do Estado da exportação, resultando em baixo fluxo de recursos financeiros estrangeiros destinados aos setores focados na fabricação de produtos para uso externo. A Índia segue o mesmo caminho, como é possível observar pelo programa econômico apresentado por Palaniappan Chidambaram, ministro das Finanças do país, que tem em vista o nível de crescimento do PIB de 6% em 2014 e 8% em 2016, focado na demanda do mercado indiano. Quanto à África do Sul, o presidente Pravin Gordhan declarou a existência da "nova situação econômica normal" no território sul-africano, assim como a falta da necessidade de introdução de qualquer correção nas suas diretrizes econômicas devido à crise que no momento ainda está sendo enfrentada pela comunidade mundial.

Geografia de investimentos

De acordo com os fatores especificados acima, os investimentos "recusados" pela China ou pela Índia poderão ser recebidos por outros dois gigantes do BRICS, tais como a Rússia e o Brasil. O discurso de Dilma Rousseff deixou claro que a Rússia possui um concorrente forte na disputa pelos recursos dos investidores dos Estados Unidos. Seguindo o exemplo russo de três anos atrás, o governo brasileiro anunciou um ambicioso programa de privatização, construção de novas linhas ferroviárias e desregulamentação de alguns setores econômicos. A presidente se referiu ao Brasil como um país onde 55% da população pertence à classe média e confirmou que os preparativos para as Olimpíadas no Rio de Janeiro de 2016 estão ocorrendo conforme o plano preestabelecido. Vale ressaltar que os participantes do evento organizado em Davos pelo banco público russo Sberbank também se referem ao Brasil como o principal adversário da Rússia na luta pelos investimentos estrangeiros. 

No entanto, não há nenhuma garantia de que os países do BRICS receberão o mesmo volume de investimentos nos próximos anos. Apesar de os Estados Unidos e a União Europeia serem os principais investidores das economias dos países do bloco dos Estados emergentes, ao longo do fórum foi mencionada a "ressonância industrial" dos EUA e o desenvolvimento do seu setor de produção, que torna o país um receptor de investimentos muito atraente. Ao contrário dele, a União Europeia possui baixos níveis de crescimento econômico. Historicamente, a Rússia considera a União Europeia um parceiro comercial mais importante do que os Estados Unidos, enquanto a recuperação dos investimentos norte-americanos na economia russa é tratada como um processo longo e complexo que, além de tudo, envolve uma questão política. Tanto a Rússia, quanto os seus concorrentes do BRICS têm poucas chances de restaurar os seus níveis de crescimento econômico a médio prazo sem a recuperação do volume dos investimentos provenientes Europa e dos Estados Unidos. No entanto, a Rússia se beneficiaria mais do reestabelecimento da demanda de consumo na União Europeia, cuja instabilidade econômica afeta a economia do país, do que da "ressonância industrial" dos Estados Unidos.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant


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