Startups russas investem no mercado brasileiro

Apps para aprender inglês e decorar a casa desenvolvidos na Rússia conquistam usuários no Brasil Foto: AFP/East News

Apps para aprender inglês e decorar a casa desenvolvidos na Rússia conquistam usuários no Brasil Foto: AFP/East News

Os EUA e a Europa estão tendo atualmente um boom de startups. Por isso, as jovens empresas de TI russas que entram nestes mercados têm que competir ferozmente com os atores locais, cenário que levou empresários russos a voltar os olhos para os mercados emergentes da América Latina. O Brasil é um deles.

Antigo gestor da empresa ChronoPay, Dmítri Chmakov lançou no outono de 2013 a plataforma Goodwin para smartphones, que permite fazer compras em tempo real. Para comprar algo através do Goodwin é preciso tirar uma foto do artigo desejado em uma revista ou outdoor. A compra pode ser paga com cartão de crédito através do aplicativo.

Elena Pospélova, diretora-geral da ABBYY 3A (Ásia, África e América do Sul):

"No Brasil, as tecnologias de TI estão mais representadas nos setores de bancos e da educação. Dependendo do segmento, a participação do país varia entre 40% a 50% do total do mercado de TI na América do Sul. Ao trabalhar no Brasil é importante lembrar as especificidades da mentalidade nacional. Além da própria localização, é possível que seja necessário refinar os softwares das aplicações de acordo com as realidades do mercado local".

Hoje, a plataforma já disponibiliza mais de 200 mil artigos de lojas online. Num futuro próximo, a empresa planeja integrar com a aplicação os outdoors virtuais exibidos em estações de trem, aeroportos e shoppings. Atualmente, a Googwin planeja testar o serviço no metrô e pontos de ônibus e trólebus de Moscou. O lucro do projeto é uma comissão entre 5% e 15% do valor do cheque da loja parceira.

No final de outubro, a empresa entrou no mercado brasileiro e se tornou residente do grande parque tecnológico Porto Digital, em Recife. A Goodwin está agora testando a versão em língua portuguesa do aplicativo e está coletando uma base de imagens dos artigos brasileiros. Por enquanto, trabalha com quatro marcas de cosméticos, para as quais criou uma versão web do aplicativo. O site pretende abrir o acesso ao serviço para as empresas brasileiras ainda este ano.

"A nós nos basta ganhar uma loja grande de cada nicho para cobrir todas as categorias e não termos que andar atrás de comerciantes no Brasil", diz Dmítri Chmakov.

Inglês para brasileiros

Auinur Abdulnassirov lançou um serviço online para aprendizagem da língua inglesa, o LinguaLeo, em 2009, que aposta em técnicas lúdicas de jogo. Na base do serviço está uma "selva" onde é possível alimentar o leão com almôndegas caso se complete corretamente as tarefas. O projeto começou a dar lucro um ano e meio depois de ter sido lançada a primeira versão do site. Atualmente, o LinguaLeo já é considerado o serviço mais popular para estudar Inglês nos países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes).

No início de 2012, Abdulnassirov decidiu entrar no mercado brasileiro. Para aumentar a escala de ação da starup, ele contou com fundos de um investidor. No início de 2012, a LinguaLeo atraiu US$ 3 milhões do fundo de risco da Runa Capital. Em dois meses a startup traduziu o site para o português e assinou acordo com uma agência de RP local. No entanto, nenhuma reação ruidosa nas redes sociais ou publicações na imprensa surgiu após o lançamento do serviço.

Iliá Satchkov, diretor-geral da Group-IB

"As startups que entrarem no mercado brasileiro devem cuidar particularmente da proteção da propriedade intelectual. Neste mercado, e juntamente com as tomadas de decisão russas, competem empresas de TI norte-americanas e locais, o que fará com que você só consiga ocupar uma posição consolidada com um produto tecnológico forte e difícil de copiar rapidamente".

"Se na Rússia o nosso público veio até nós após o nosso post no recurso Habrahabr.ru, no Brasil isso não funcionou –todas as plataformas de mídia estão divididas entre as principais empresas”, Abdulnassirov. “Aconteceu também que a compra de tráfego e publicidade no Brasil saiu mais cara devido ao fraco desenvolvimento do mercado cibernético e aos preços injustificadamente elevados por parte das agências de publicidade."

O Abdulnassirov e sua equipe então foram a São Paulo para participar de um grande evento de TI e assim conseguir despertar o interesse no serviço. Nos cinco meses seguintes a LinguaLeo ganhou cerca de 170 mil usuários registrados. Também se fizeram notar peculiaridades regionais: por exemplo, os brasileiros preferem pagar aulas mensalmente ao invés de fazer uma assinatura anual, como é mais comum entre os estudantes russos.

Hoje, a LinguaLeo tem 450 mil usuários registrados no Brasil.

"Os brasileiros são pessoas bastante sociáveis e muitos chegam ao site através das redes sociais (especialmente pelo Facebook), mas, no geral, o público daqui está mais focado em produtos tradicionais”, diz Abdulnassirov. “No nosso site você pode, por exemplo, assistir a filmes e notícias em inglês com legendas em português, ler artigos e anedotas em inglês com ‘popups’ da tradução das palavras, entre outras novidades. E temos também cursos interativos online. Mas os brasileiros gostam dos cursos de formação ‘comuns’, com conjuntos de exercícios."

Seu próprio designer


Foto: divulgação

Em 2010, Aleksêi Cheremetiev e Serguêi Nossiriev lançaram o serviço Planner 5D, que permite aos usuários planejar virtualmente a disposição em 3D do mobiliário em um apartamento ou casa de campo. Até o verão de 2013, cerca de 1,5 milhão de usuários tinham testado o Planner 5D através da criação de cerca de 4 milhões de projetos de design. Ao mesmo tempo, entravam diariamente no portal cerca de 50 mil pessoas. Então, Cheremetiev e Nossiriev lançaram o aplicativo para iOS.

Andrêi Kulikov, gerente de investimentos da FastLaneVentures 

"Os mercados da América Latina são muito promissores: nesta região do planeta vivem cerca de 600 milhões de pessoas, e o crescimento dos países líderes está à frente da média mundial. Como em qualquer mercado emergente, existem barreiras ao negócio que surgem em forma de corrupção, infraestrutura deficiente e peculiaridades locais. Dadas as especificidades do mercado russo, nem todos os modelos de negócios russos podem ser transferidos com sucesso para outro mercado".

Hoje existem em todas as plataformas do Planner 5D mais de 2 milhões de usuários registrados. A startup engaja no projeto empresas russas de mobiliário e de construção que colocam os seus produtos no diretório/catálogo do programa.

No início, os proprietários de casas no Brasil foram os usuários mais ativos do Planner 5D, superando o número de usuários da Rússia e dos Estados Unidos. Esse desenrolar dos acontecimentos foi inesperado para os empresários.

"O Brasil está no meio de um boom econômico, de construção e de  desenvolvimento de TI. O comercio eletrônico está em crescimento", diz Cheremetiev.

Hoje, cerca de 15% dos acessos aos Planner 5D são oriundos dos EUA, 10% do Brasil e o resto vem dos países da CEI e da Europa. Os fundadores do projeto já lançaram uma versão do projeto em língua portuguesa.

"Se na Rússia os nossos usuários projetam apartamentos, os brasileiros constroem principalmente amplas moradias, luminosas e espaçosas, e dão grande importância à questão paisagística”, diz Nossiriev. “O interior das casas tem sempre uma sala de jantar, grandes compartimentos, geralmente vários banheiros e quartos".

Por enquanto apenas uma marca se conectou à Planner 5D –um fabricante de móveis estofados e de mobiliário por módulos. Até o verão a empresa pretende alcançar os 3 milhões de usuários e aumentar a participação dos brasileiros em até 15%. De acordo com os fundadores da startup, isso permitirá à empresa negociar ativamente com os vendedores brasileiros.

Investimentos Diretos e Capital de Risco na América Latina

 

Publicado originalmente pelo RBC Daily

 

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