Adiamento de acordo entre Ucrânia e UE gera protestos

Durante o fim de semana, mais de 100 mil pessoas saíram às ruas em Kiev para se manifestar contra a decisão Foto: ITAR-TASS

Durante o fim de semana, mais de 100 mil pessoas saíram às ruas em Kiev para se manifestar contra a decisão Foto: ITAR-TASS

Questão envolve de um lado a União Europeia e de outro a Rússia, que quer a entrada da Ucrânia na União Aduaneira (Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão).

A decisão de Kiev de não assinar o Acordo de Associação com a União Europeia no futuro próximo provocou indignação nas estruturas europeias. Mas o assunto também gera muita controvérsia dentro do país.

O primeiro-ministro ucraniano Mikola Azarov confirmou nesta terça-feira (26) que a Rússia pediu a seu país que adiasse a assinatura do acordo, o que desatou críticas da oposição e manifestações populares, informou a “France Presse”.

"A Rússia propôs adiar a assinatura e iniciar negociações", declarou Azarov. A UE acusa Moscou de ter pressionado Kiev para impedir o acordo.

Durante o fim de semana, mais de 100 mil pessoas saíram às ruas em Kiev para se manifestar contra a decisão.

“A Ucrânia sempre seguiu uma política de múltiplas vetores. A adesão do país à União Europeia ou à União Aduaneira não permitirá seguir esse caminho de multilateralismo”

Azarov declarou, no entanto, que a parceria com a União Europeia implicaria muitos gastos para o país. Apenas a introdução de normas tecnológicas da UE custaria de US$ 140 bilhões a US$ 215 bilhões nos próximos dez anos, dinheiro que o país não tem.

O comércio também é ameaçado. De acordo com presidente da direção da associação ucraniana Fornecedores da União Aduaneira (bloco formado por Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão), Oleg Noguínski, desde o início do processo de integração europeia, o volume de exportações da Ucrânia para a Rússia caiu 25%.

“Todas as empresas do sudoeste do país foram afetadas", diz Kolesnitchenko, deputado da Rada Suprema do Partido das Regiões. Desde agosto, a Ucrânia perde de 15 mil a 20 mil  postos de trabalho por mês. De acordo com o vice-primeiro-ministro, Iúri Bóiko, desde agosto, o país perdeu cerca de US$ 500 milhões por causa da queda no comércio.

Moscou acredita que a zona de comércio livre entre a União Europeia e a Ucrânia prejudicaria a economia russa. Caso ela ocorra, a Rússia afirmou que introduzirá uma tarifa única e endurecerá as normas das inspeções aduaneiras para proteger o mercado interno da reexportação de mercadorias da Europa e da Turquia.

A mídia havia informado que a assinatura do Acordo de Associação ajudaria o país a receber um influxo de US$ 600 bilhões, e a Europa, cerca de US$ 450 bilhões.

Os números não teriam sido baseados em pesquisas reais e apareceram como parte de uma campanha publicitária financiada pela União Europeia, dizem os opositores da ideia.

Os defensores da entrada do país na União Aduaneira apresentaram outros  números. "O lucro depois da entrada na União Aduaneira pode alcançar US$ 9 bilhões apenas por causa da abolição das tarifas de importação e exportação de petróleo e gás”, diz Noguínski. “Além disso, a facilidade de acesso aos  bens ucranianos para os membros da União Aduaneira ajudará a Ucrânia ganhar mais de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões", completa.

O gás é o tema da maior atualidade para Kiev. "O preço de gás para a Ucrânia poderá ser reduzido apenas após a integração com a Rússia. Nesse caso, Kiev poderá comprar gás por um preço doméstico (cerca de US$ 170 por 1.000 metros cúbicos), e a Rússia continuará a fornecer gás à Europa através do território ucraniano”, explica Noguínski.

De acordo com o diretor da Fornecedores da União Aduaneira, a associação da Ucrânia com a União Aduaneira permitirá encomendar equipamentos militares russos. “Atualmente, as empresas ucranianas são capazes de produzir 40% dos produtos militares encomendados pelo Estado, ou seja, teoricamente a adesão da Ucrânia à União Aduaneira poderia levar a economia de cerca de US$ 250 bilhões na compra de equipamentos militares", explica.

De acordo com o assistente do presidente russo, Serguêi Glazev, a adesão à União Aduaneira poderia aumentar a balança comercial em US$ 10 bilhões por ano. “Até 2030, o PIB da Ucrânia poderia crescer 7%, ou seja, US$ 220 bilhões”, diz Glazev.

A questão não é apenas econômica

Além dos interesses econômicos, que obviamente são os mais importantes para a Ucrânia, também existem objetivos políticos. No final de 2011, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que permite assinar o acordo de associação entre a Ucrânia e a UE apenas após a liberação da líder oposicionista Iúlia Timochenko. Além disso, o Parlamento Europeu insiste que Timochenko deve receber o direito para participar das futuras eleições presidenciais.

No entanto, nem o partido governante nem a oposição estão interessados no retorno de Timochenko à política. Se não receber o direito para participar das eleições, no entanto, Timochenko poderá influenciar significativamente os resultados das eleições. Isso claramente prejudica as perspectivas políticas de Ianukovitch e de todos os líderes dos partidos de oposição.

De acordo com o diretor do Instituto de países da Comunidade de Estados Independentes, Konstantin Zatúlin, a elite ucraniana começou a entender que a “amizade” com a União Europeia pode levar a muitas dificuldades políticas.

“A preocupação da Europa com o destino da ex-primeira-ministra foi interpretada por Kiev como o desejo de Bruxelas de ter o seu próprio candidato nas eleições de 2015, que terá boas chances para ganhar”, diz Zatúlin.

Segundo Zatúlin, a Europa tentou matar dois coelhos com uma cajadada só: piorar as relações entre a Ucrânia e a Rússia, evitar a adesão da Ucrânia à União Europeia e ao mesmo tempo agir como um defensor dos princípios democráticos. “A Ucrânia sempre seguiu uma política de múltiplas vetores. A adesão do país à União Europeia ou à União Aduaneira não permitirá seguir esse caminho de multilateralismo”, completou Zatúlin.

 

Com informações da Gazeta.ru e Vzgliad

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