“Vamos continuar a campanha pelo Ártico”, diz ativista do Greenpeace

Oulahsen: "Tive a impressão de que tudo é possível nesse país" Foto: AP

Oulahsen: "Tive a impressão de que tudo é possível nesse país" Foto: AP

Às vésperas de deixar a Rússia, holandesa Faiza Oulahsen relembra ação de protesto e seus dias na prisão

Gazeta Russa: Como você passou o tempo em São Petersburgo desde que foi libertada?

 

Faiza Oulahsen: Bem, para ser sincera, curti muito esse período em liberdade, mas foi também um momento de transição. Acho que só quem esteve na prisão pode entender isso. Estou tentando voltar a um ritmo normal, comer coisas saudáveis novamente. Também converso bastante com meus amigos e família, além de circular pela cidade.

Gazeta Russa: Você já tinha vindo para a Rússia antes?

FO: Esta é a minha segunda vez. A primeira foi há seis meses, em Khanti-Mansisk, onde estávamos procurando derramamentos de óleo. Depois disso, convidamos alguns jornalistas na esperança de que eles fossem trazer os acidentes à tona, porque às vezes é preciso estar exatamente onde as coisas acontecem.

Gazeta Russa: Você acha que a ação do Greenpeace foi um protesto pacífico?

FO: Acho que, apesar de termos sidos acusados ​​de vandalismo e isso ter se espalhado por aí, trata-se de uma visão distorcida do que realmente aconteceu. Mas até agora não houve nenhuma prova de nada que chegue perto de vandalismo ou pirataria. Foi um protesto pacífico e não violento. Nesses protestos, estão envolvidos ativistas que sabem o que estão fazendo, e segurança é sempre uma prioridade. Sempre agimos à base da comunicação, informando a empresa sobre as nossas intenções.

Gazeta Russa: Na sua opinião, de todos os riscos ambientais associados à perfuração no Ártico, qual é o mais grave?

FO: A perfuração de petróleo nunca é isenta de riscos, mas há uma diferença significativa entre o petróleo onshore e offshore. Quando se fala em offshore, os riscos são sempre maiores. Também há sempre o risco de derramamento de óleo, não importa o quão pequeno for. Ninguém na indústria de petróleo nega isso. Se observarmos o mar de Pechora, onde está a plataforma Prirazlomnaia, vemos que a região fica coberta por gelo espesso durante a maior parte do ano. Isso sem falar da escuridão, tempestades, névoas. Não há infraestrutura para tudo isso, de modo que as chances de alguma coisa dar errado são grandes.

Gazeta Russa: Ser presa não é uma experiência positiva. Mas, fora isso, qual a impressão ficou da Rússia?

FO: A primeira vez que vim para cá tive a impressão de que tudo é possível nesse país. Acho que alimenta o tipo de incerteza que pode gerar esperança, mas também provoca medo. Lembro-me de uma pessoa que escreveu para mim que “viver na Rússia é como uma loteria, pois tudo pode acontecer”, e isso é verdade.

Também recordo de alguns russos no tribunal me dizendo algo como: “Sabe, não fique triste, você é tão valente. Foi tão corajosa a sua atitude”. Havia muitas reações de apoio por parte dos russos que se importam com que está acontecendo em seu país e que amam a natureza.

Gazeta Russa: E você está preparada para participar de protestos semelhantes no futuro?

FO: Vamos continuar a campanha para salvar o Ártico, isso não vai mudar. Portanto, sim, vou continuar a participar e fazer parte dos protestos futuros. No entanto, devo admitir que nossas táticas relacionadas à Rússia serão um pouco diferentes, e vamos ter que ser mais criativos.

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